Copa 2014 e o clima de sorriso amarelo

Com o título “A Palavra que precede o sorri”, eis artigo do publicitário e poeta Ricardo Alcântara. Ele aborda a Copa 2014 e indaga: por que não estamos festejando? O articulista expõe alguns dos motivos. Entre eles, o campo de obra inacabada. Confira:

Brasileiros pelo mundo – no seu mais distante: Ucrânia, Síria ou Tailândia, quando respondem à pergunta sobre seu país de origem logo as pessoas de lá abrem um largo sorriso. A palavra ‘Brasil’ tem este dom: ela precede o sorriso do mundo. O futebol – o modo como o praticamos Garrincha, Pelé, Zico, Romário e Neymar – é uma das causas da nossa reputação de gente sangue bom. Lá fora, acredita-se que vivemos com as mesmas virtudes que se revelam com a bola em nossos pés.

Uma copa do mundo no Brasil, quem não sonhava com ela? No entanto, tarda o país a se envolver com sua realização. A pergunta que não quer calar é: por que não estamos celebrando esta como a “Copa das copas” que deveria ser? Começo pelo começo, a economia. Crescemos por dez anos e, como em toda parte, reduzimos o ritmo. O acento forte no consumo se mostra de curto fôlego para o salto na infraestrutura. Em saúde e segurança, o que não se agrava, estanca.

A percepção coletiva não é de crise, mas de incerteza: se 47 por cento declara intenção de voto na presidente Dilma, 72 por cento manifesta desejo de mudança. Grande parte dos brasileiros ocupa espaço nos dois grupos: manter, mas mudar. Ao quadro incerto, soma-se a decepção: ao contrário do que o presidente Lula assegurou, há dinheiro público, sim, dos cofres estaduais e de empréstimos graciosos do BNDES, na construção dos estádios, além de superfaturamento.

As insatisfações prosperam ainda porque o melhor da copa não veio a tempo: só 12 por cento das obras de mobilidade urbana estarão prontas quando Neymar tocar a bola para Fred em Itaquera, dando início à primeira partida da competição. Mas haverá um legado: as obras públicas. Mesmo os estádios, confortáveis, o torcedor brasileiro os merece. Sobre os desperdícios, longe de querer sancioná-los, a mídia espontânea sobre o país no exterior, se contratada, não sairia mais barata.

Já estava mesmo na hora do Brasil sediar uma Copa do Mundo. E pode ser que, na ponta do lápis, esta copa não seja lá um bom negócio e tampouco represente um prejuízo que não possa ser compensado pelos ganhos subjetivos, simbólicos. O poder público apostou no instinto ufanista da “pátria de chuteiras” e subestimou o desconforto de consciência de se ver estádios brotarem do chão enquanto o crime toma conta das cidades e as filas nos hospitais não param de crescer.

O povo brasileiro não foi para as ruas quebrar as cidades. Nem foi a elas para aplaudir os desvios. Dá com isso, em ambos os casos, uma lição de civismo que o discurso velhaco do populismo governista não teve a grandeza de alcançar. Que respostas nos foram dadas às manifestações de massa de 2013, quando fomos às ruas dizer aos dirigentes do país que estamos prontos para apoiá-los nas mudanças que o país precisa? Os talheres de sempre. Os conchavos de sempre.

Decepcionado com sua classe política, mas em paz com sua brasilidade, o povo vai torcer pelo que merece afirmação: sua índole criativa que a tradição de estilo da seleção brasileira tão bem representa. E festejaremos. Se festa houver.

* Ricardo Alcântara,

Publicitário e poeta.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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