Copa 2014 – Ex-secretário discorda que certame foi só beleza para o turismo cearense

Com o título “Copa, Turismo: Fatos & Versões”, eis artigo do ex-secretário do Turismo do Ceará, Allan Aguiar. Ele diz que a Copa não foi tão boa para o turismo do Ceará e expõe aspectos negativos não divulgados pela área oficial. Confira:

Mesmo ainda processando a trágica e histórica goleada e pífios resultados futebolísticos que a Copa das Copas nos impingiu, já é possível aprofundar a análise quanto ao efetivo legado deixado pelo evento para o Brasil e, em especial, para as cidades-sedes. O nervosismo do clima pré-eleitoral vem subtraindo enorme consistência e qualidade do debate sobre esse importante acontecimento, o qual não aceita Versões, mas sim e unicamente os Fatos, considerando que tudo pode ser mensurado e, portanto, avaliado por critérios objetivos.

Revisitando o passado, representado pelo Caderno de Encargos pactuado com a FIFA ainda em 2008, o qual previa investimentos superiores a oito bilhões de Reais, tem-se que as únicas infraestruturas efetivamente e plenamente viabilizadas foram a profunda reforma do Castelão com a melhoria viária do seu entorno e o novo Terminal de Passageiros do Porto do Mucuripe. Ficaram pelo caminho o VLT, alguns túneis, viadutos, Aeroporto, a beira-mar e outras urbanizações. O realizado desse orçado não chegou a 35%, mesmo se considerarmos a polêmica relação direta do novo e importante Centro de
Eventos com a Copa. Quando o assunto são as Ações de qualificação, capacitação, treinamento e formação de mão-de-obra para o setor de serviços turísticos, temos que saímos do mesmo tamanho que entramos. Sem falar outras línguas, mais determinante para a satisfação das torcidas foi a cativante alegria, energia e calor humano típicos dos brasileiros. Nossa acolhida, juntamente com nossa música, dança, gastronomia e artesanato também arrancaram efusivos elogios dos povos.

Com média de permanência de três dias, os torcedores das seleções que se apresentaram no Castelão, fizeram muito barulho em Fortaleza e pouquíssimo sucesso junto aos elos mais importantes da cadeia produtiva do turismo. A média de ocupação da Rede Hoteleira ao longo da competição confirmou as piores expectativas. Na casa dos 65% nesses dias de jogos, a Copa, por incrível que possa parecer, atrapalhou os planos da hotelaria que assiste um julho nada animador. Alguns resorts situados em praias próximas a Fortaleza, quando raro, conseguiram cravar 55% de taxa de ocupação nesse período. As entidades do Comércio acusaram o golpe, apresentando balanços desalentadores da atividade no período. Também os comerciantes da Monsenhor Tabosa, Mercado Central e Centro de Turismo não tiveram o que comemorar. Esses resultados serviram apenas para homologar a postura do capital privado que não apostou em novos empreendimentos hoteleiros para atender a Copa. O Governo que apostava em falta de Hotéis e tarifas nas alturas assistiu surpreso, falta de hóspedes, fartura de torcedores e tarifas normais. Registre-se que nos últimos sete anos sequer um único hotel foi inaugurado em Fortaleza. Afora esses números resta especular quantos nordestinos ficaram transitando por terra na rota Salvador/Recife/Natal/Fortaleza.

Os números divulgados pela INFRAERO relativamente à movimentação de passageiros no Aeroporto de Fortaleza em Junho passado explicitam o fiasco do impacto econômico, da receita e da renda turística produzida pela Copa em Fortaleza. Dos seis jogos acontecidos no Castelão cinco foram em Junho que teve 279.743 desembarques, sendo 13.339 internacionais e 266.404 domésticos. Se compararmos com nossa última alta estação turística, em janeiro passado, o mesmo aeroporto contabilizou 290.510 desembarques totais, sendo 10.063 internacionais e 280.447 domésticos. Afora esses números resta especular quantos nordestinos ficaram transitando por terra na rota Salvador.

A mídia espontânea de dimensão planetária que as transmissões televisivas dos jogos proporcionaram precisa de exame cauteloso por partes daqueles que acreditam na capacidade dela servir como gatilho do fluxo turístico futuro.

Não é plausível admitir que mercados emissores como México, Gana, Uruguai, Costa do Marfim, Holanda, Grécia e Colômbia passarão a ser representativos na contabilidade do turismo internacional no Ceará pelo simples fato de terem jogado em terras alencarinas. Afinal, sequer temos ligações aéreas com esses países. A propósito, alguém é capaz de lembrar qual cidade da África do Sul recepcionou o Zero X Zero do jogo entre Brasil e Portugal? Quanto à Alemanha, que também passou por aqui, existe a possibilidade do voo da aérea Condor Airlines, recentemente implantado, vir a manter taxas de ocupação que afaste a possibilidade do mesmo ser descontinuado, como já aconteceu com a Ibéria, a Delta e a Alitália.

Outro componente que chamou a atenção de quem usou os serviços públicos, nomeadamente de transportes urbanos disponibilizados às torcidas, foi a precariedade e o improviso estabelecido. Demora, calor e desconforto nos ônibus era o estágio probatório de mais calor ainda dentro de um Estádio que, façamos justiça, estava impecavelmente ambientado pela FIFA e sob os olhares atentos dos Seguranças. Dentro do estádio, a FIFA garantiu seu padrão. Fora dos Estádios, o padrão era cearense mesmo. Assistir a “elite branca” pagar dez reais para ser transportada em bicicletas cargueiras de moradores da região foi a constatação do improviso e do salve-se quem puder para chegar da melhor forma possível no estádio. Após os jogos, novo caos para voltar para casa. Contudo, como tudo era futebol, festa, suor e cerveja, ninguém ligou muito para os “puxadinhos” da Copa, dentre os quais o mais destacado representante ainda é o Terminal de lona do Pinto Martins.

Mas nada disso é importante para o discurso dos candidatos, salvos pelo Show de Bola (das outras seleções) que assistimos, pelo clima festivo das torcidas, assim como pela organização privada do evento. A Copa provou que consegue ser viável na África, na Europa, na Ásia, na América do Norte e do Sul, apesar de Governos.

* Allan Aguiar, consultor empresarial e ex-secretário do Turismo do Ceará.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

Um comentário sobre “Copa 2014 – Ex-secretário discorda que certame foi só beleza para o turismo cearense

  1. Caro Eliomar

    Aconteceu uma pequena supressão do texto publicado. Onde se lê “rota Salvador”, na realidade é “rota Salvador/Recife/Natal/Fortaleza”.

    Cumprimentos

    Allan Aguiar

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