Corrupção como sistema de governo

Da Coluna Fábio Campos, no O POVO deste domingo (23):

Fato: a dura denúncia apresentada no Supremo contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), suga boa parte das forças do mais efetivo (e declarado) opositor da presidente Dilma Rousseff. Antes da denúncia, já era bastante frágil a credibilidade de Cunha para liderar um processo de impeachment da presidente.

Vamos à trajetória do carioca Eduardo Cunha: na política, o começo se deu a convite de PC Farias, o Caixa 2 de Fernando Collor. Mais tarde, se alinha ao grupo de Anthony Garotinho e passa a ser um liderado do então governador do Rio, quando se notabilizou pela capacidade de levantar recursos para as campanhas eleitorais.

É deputado federal desde 2003, reeleito em 2006 e 2010. Foi exatamente entre esses dois últimos mandatos que começaram as estripulias detectadas pela Operação Lava Jato. Na época (2006-07) em que o Ministério Público situa a primeira acusação, Cunha era um parlamentar sem expressão nacional, sendo um membro do grupo que a crônica política costuma chamar de “baixo clero”.

Na eleição de 2010, foi o quinto deputado federal mais votado do Rio de Janeiro. Coincidência? Talvez não. Nessa fase, segundo o Ministério Público, Cunha já era o beneficiário do absurdo propinoduto que funcionou na Petrobras. Caso tenha sido mesmo assim, certamente seu caixa de campanha teve papel importante no tamanho de sua votação.

Agora, uma questão que não pode escapar: como um deputado que nem era da linha de frente da Câmara dos Deputados conseguiu ter tanta influência nos negócios da Petrobras? Ora, era um poder concedido. Por quem? A resposta é óbvia e pode ser respondida por uma nova pergunta: quem manda na Petrobras?

Um deputado jamais vai conseguir ter grande influência em qualquer estatal se não receber o aval do Poder Executivo para tal. E foi isso o que aconteceu. Em nome de um projeto de poder, os esquemas de corrupção se estabeleceram. Em tempo: a Petrobras é entre as estatais a que possui os melhores padrões de governança, apesar de tudo. Imagine-se então o que pode ter ocorrido nas estatais, digamos… mais frouxas.

A propósito, vale reproduzir recente declaração do ministro do Supremo, Gilmar Mendes. Atentem: “Me parece que há uma mesma raiz tanto para o fenômeno do mensalão quanto este do chamado petrolão, e agora eletrolão, e quantos ‘ãos’ venham ainda. Parece-me que há uma mesma matriz, é uma forma de governar, é um modelo de governança. E isso que é problemático nessa história toda. Acho algo realmente de proporções inimagináveis. A corrupção como sistema de governo, como forma de organizar a administração, realmente é algo impensável”.

Como diria um velho amigo, sem mais.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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