Cotas e Mais Médicos

Em artigo no O POVO deste domingo (8), o sociólogo André Haguette avalia o Mais Médicos como avanço. Confira:

O sistema de cotas para acesso ao ensino superior não é certamente solução ideal, que seria um ensino público fundamental e médio de qualidade; no entanto, as cotas prestam um grande serviço social e fazem justiça a estudantes competentes e dedicados.

O Bolsa Família certamente não é solução ideal; seria melhor qualificar a mão-de-obra, dando-lhe também emprego; no entanto, o Bolsa Família contribui para a diminuição da pobreza extrema e provoca uma melhor distribuição de renda. A vinda de médicos cubanos por um período de três anos sem uma rigorosa avaliação (Revalida) não parece ser solução ideal e definitiva; no entanto, ela pode cumprir uma função necessária e poderá grandemente ajudar uma população esquecida por nosso sistema de saúde. Como sabemos, a perfeição pode ser a inimiga do bom. Cotas e Bolsa Família já criaram um Brasil melhor; o Mais Médicos poderá somar-se a esses avanços. Avanços sim, mas quanto insuficientes e precários!

Desde o início das discussões fui favorável à vinda de médicos cubanos, mas com um pé atrás. A solução definitiva é sem dúvida a implantação de condições adequadas em cada município e distrito para um atendimento primário de qualidade com médicos brasileiros (em sua maioria) e estrangeiros com uma formação comprovada, o que implica num enorme aumento de investimentos financeiros e administrativos, num aperfeiçoamento generoso do SUS.

Mas isso não é tudo. Não há desenvolvimento de condições sanitárias e médicas sem um desenvolvimento da totalidade da vida de um município. O desenvolvimento não se dá de maneira segmentada, mas de modo integrado, isto é, nos seus aspectos econômicos, políticos, sociais, educativos, de segurança, etc, o que começa a ocorrer, mas de uma forma tímida e lenta. Assim sendo, é compreensível que médicos que optaram pela medicina por ser uma profissão rentável e não por devoção a uma causa não queiram viver com sua família em um ambiente carente de quase tudo.

Consolidei meu titubeante posicionamento quando li “Carta aos médicos cubanos”, escrita pelo médico e professor do Instituto de Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês David Oliveira de Souza, ex-diretor médico de Médicos Sem Fronteira no Brasil. Nela ele dizia: Será bom vê-los diagnosticar apenas com estetoscópio, aparelho de pressão e exames básicos pais e mães de família hipertensos ou diabéticos e evitar, assim, que deixem seus filhos precocemente por derrame ou por infarto.

Será bom vê-los prevenindo a sífilis congênita, causa de graves sequelas em tantos bebês brasileiros somente porque suas mães não tiveram acesso a um médico que as tratasse com a secular penicilina… O mesmo vale para gastroenterites, crises de asma e tantos diagnósticos para os quais bastam o médico e seu estetoscópio … Aí me lembrei da Pastoral da Criança que já salvou dezenas de milhares de vida somente munida de balanças e soro caseiro; lembrei-me que uma mãe de família com boa formação, o que não temos em muitos interiores, é elo fundamental na atenção primária.

Lembrei-me do médico sanitarista cearense, Carlile Lavor, que, prefeito de Jucas, investia 42% do orçamento da prefeitura em educação para, dizia ele, “melhorar a saúde do povo”. A Carta acrescentava: “A presença de vocês criará demandas antes inexistentes e os governos serão mais pressionados pelas populações”. Que assim seja!

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

14 − doze =