De que “partido” falam?

Em artigo no O POVO deste sábado (27), o Doutorando em Sociologia (UFC) e  professor de Sociologia (Ufersa) Emanuel Freitas destaca que “a família não forma cidadãos, mas apenas filhos e pessoas; o cidadão é formado na vida pública”. Confira:

Muitas são as objeções que se podem fazer ao famigerado projeto “Escola sem partido”, que tramita no Senado. Não é possível compreendê-lo sem inseri-lo no conjunto de transformações sociais que tomaram corpo no Brasil durante os últimos governos, pois este é apresentado como uma reação às ações dos últimos 13 anos. Ou seja, a “escola sem partido” é, na verdade, “uma escola sem PT”, ou sem aquilo que o partido implantou nas escolas.

O “sem partido” remete logo ao PT, uma vez que vem à arena justamente no momento de maior desgaste deste. História da África, discussões sobre classes sociais, sobre as desigualdades sociais entre os gêneros, dentre outras questões. É isso o ser “sem partido”.

O pior do PL é o seguinte: a obrigação de professores, de escola pública, não irem de encontro a crenças e valores dos pais. Diz o texto: “o professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”. Uma conquista da modernidade, enquanto ‘era histórica’, é a contraposição da esfera pública à esfera privada. A família não forma cidadãos, mas apenas filhos e pessoas; o cidadão é formado na vida pública, que sob muitos aspectos deve contrapor-se aos valores da casa.

A escola nunca proibiu que filhos recebessem, em suas casas, a educação moral de acordo com as convicções de seus pais. Mas isso é do mundo da casa, não da escola. A escola é o mundo – “vais conhecer o mundo, disse meu pai à porta do Ateneu”, como nos lembra Raul Pompéia – e no mundo os valores “dos pais” são apenas “mais um”. Durkheim nos lembra que a escola é o espaço da “socialização secundária”, aquela em que a criança apreende valores distintos dos da família, preparando-se, agora, sim, para a vida social.

A escola não é promotora do mundo da casa. Sergio Buarque, em Raízes do Brasil lembra-nos ser função da pedagogia moderna o rompimento com o mundo privado, e não promovê-lo, como querem os apologistas do PL, na boa e velha tradição brasileira de impor os interesses da “casa” aos da “rua”.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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