Distritão: regressão caciquista

Editorial do O POVO deste sábado (12) avalia que o distritão é um risco que o País não pode correr, tendo em vista que a proposta deforma e elitiza ainda mais a representação, enfeudando o mandatário e autonomizando-o ainda mais perante seus eleitores, Confira:

Os brasileiros foram surpreendidos pela aprovação, na comissão especial da Câmara dos Deputados que analisa a reforma política, da proposta de instituição do voto majoritário para a eleição do Legislativo nos próximos pleitos de 2018 e 2020 – o chamado “distritão”. Por ele, as vagas para o Parlamento serão distribuídas entre os candidatos que obtiverem mais votos em todo o Estado, independentemente do partido a que pertençam.

O texto da PEC original estabelecia o sistema distrital misto: metade das candidaturas seria eleita em cada unidade distrital, por voto majoritário, e a outra metade, por voto proporcional, em todo o Estado. A troca supostamente se deu pela falta de tempo hábil para a implantação dos distritos antes de 2018. A promessa é que seria uma transição, até 2022, quando então começaria o voto distrital misto. Mas quem tem segurança de que os eleitos por esse sistema abririam, depois, mão dele, já que facilita a eleição de quem já tem mandato? Esse é um risco que o País não pode correr, tendo em vista que o “distritão” deforma e elitiza ainda mais a representação, enfeudando o mandatário e autonomizando-o ainda mais perante seus eleitores.

O partido sempre lhe seria um estorvo, pois não dependeria dele para eleger-se e o candidato poderá até ter como adversário de campanha o próprio companheiro de agremiação. Ele não se sentirá vinculado, verdadeiramente, a um conjunto de ideias, programas e projetos representativos de um coletivo partidário, que é o instrumento apropriado para se conquistar o poder a fim de imprimir um dado rumo à sociedade. Seu núcleo de sustentação tenderá a ser cada vez mais o clientelismo. E foi justamente por conta desse potencial degenerativo que o Japão (que chegou a adotá-lo) dele se desfez numa autoassepsia política.

Fincados no personalismo, tais representantes serão um fator complicador da governabilidade, já que o governante terá de negociar com cada um individualmente, coisa já dificílima de fazer com os atuais caciques partidários e regionais. O Brasil não merece regredir a tais desvãos políticos. Se é preciso uma transição até a instalação de uma proposta mais confiável, façamo-la resguardados pelo sistema atual, já conhecido, e com cujos defeitos já sabemos lidar. É o mais sábio e prudente.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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