Drogas e violência ou violência e drogas?

Em artigo enviado ao Blog, o secretário especial de Políticas sobre Drogas do Governo do Ceará, Marcelo Uchôa, questiona “até que ponto a generalização de que droga e violência estão necessariamente associados ajuda a construir uma ambiência mais honesta para todos?”. Confira

Pouco antes de falecer, o filósofo Umberto Eco alvoroçou o senso comum afirmando que a internet elevou o tolo ao mesmo nível do Prêmio Nobel, oportunizando-lhe amplificada repercussão social. Não se deve desmerecer o importante papel das redes na multiplicação dos atores que passaram a protagonizar o processo de formação de opinião. Contudo, na esteira do que argumentou o pensador, é inegável que as novas mídias têm sido tomadas em prol da reverberação de odes e mais odes de sandices e disparates, ditando modus operandi em escala global, a ponto de se imporem sobre mídia convencional, malha de ensino, associações civis, partidos políticos, enfim, instituições suscetíveis aos interesses imediatos da audiência.

Dentre chavões vociferados na internet que, em tempos como os atuais, de desmesurada cultura da violência, soam mais perversos do que nunca, estão os preconceitos sobre a temática das drogas. Sofismas em torno da evidência da consumação de crime sob efeitos de droga ou da desmedida perversidade do tráfico induzem a sociedade a, equivocadamente, concluir que o uso de psicoativos é o grande mal do século, razão de toda criminalidade.

Ora, a utilização de substâncias para alteração de comportamento sempre foi um recurso compreendido como natural pelo ser humano. Quando não por escopo recreativo, por razões medicinais ou religiosas. A discussão sobre o potencial ofensivo da droga e sua relação com a eventual ilicitude é um tema que as sociedades, a partir de ponderações econômicas, agregaram ao debate. Não fosse assim, o consumo de álcool não seria permitido, já que altamente capaz de modificar percepções, reflexos, sentidos humanos.

A violência não decorre da droga. Provém de fatores complexos como, por exemplo, a insuficiência no acesso a serviços sociais. Não por acaso, na Escandinávia, o consumo de drogas injetáveis e sintéticas é grande, mas os níveis de violência são baixos. O tráfico de drogas é que, ao alicerçar-se numa matriz de violência, impacta numa grave questão de segurança pública. Mas isso porque o Estado opta em deslocar o comércio de drogas para a margem da lei. Durante os anos 20 e 30 do século XX, enquanto vigia a Lei Seca, os EUA amargaram Al Capone e cia e nem de longe sufocaram a violência e eliminaram o álcool de seu cotidiano.

Indo-se diretamente ao ponto, a problematização que se traz ao debate é: até que ponto a generalização de que droga e violência estão necessariamente associados ajuda a construir uma ambiência mais honesta para todos? Por que, se isso é verdade, a primeira coisa que não se pode cometer é a injustiça de rotular como criminoso apenas o jovem pobre, negro, da periferia. O mesmo tem que valer para o filho da classe endinheirada que comete o ilícito. Afinal, fumar crack para ter coragem de assaltar é tão factível quanto tomar um sintético para ter coragem de “faturar a mina” na balada.

Com efeito, urge que se adote sensibilidade na compreensão da política sobre drogas, prestigiando-se uma abordagem mais analítica e menos preconceituosa, capaz de, assimilando as nuances econômicas da problemática, delimitar precisamente o liame que separa as figuras do usuário e do traficante. Pari passu, enfatizando-se um caráter humanista e psicossocial sobre a questão em detrimento de uma visão apelativa e meramente policialesca. Essa simplória, porém necessária prudência, resultaria numa mudança de destino para milhares de pessoas que, ano após ano, avolumam-se nos abarrotados cárceres do país. Que os tolos de Umberto Eco permaneçam nas redes sociais, não fora delas.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

Um comentário sobre “Drogas e violência ou violência e drogas?

  1. Eliomar de Lima, Quem sou eu? Sou um professor liberal, realista, humanista e pacifista e desenvolvo um trabalho científico no meu Centro de Pesquisa. Enviarei para o seu e-mail alguns textos políticos, tais como: Brasil Um País de Todos ou de Tolos, Tecnocracia do Imperialismo Capitalista e Anulação do Voto ou Continuidade da Corrupção e, também, alguns textos científicos tais como: Orelha do Meu Livro, Plantas Alucinógenas e Os Males Que Fazem, Eletromagnetismo e Bioenergética, A Alucinação Através do Tempos, Cuidado Com o Misticismo! Uma Vivência Esquizofrênica , Noções Básicas e Dúvidas Sobre a Hipnose e Consciência Ecológica da Vida. Enviarei também a argumentação a respeito do secretário de Roberto Cláudio, Grato pela atenção, Lagore.

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