E por falar em saudade…

Com o título “Saudade de perto”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. Ele fala sobre saudade em várias dimensões. Um texto, enfim, para reflexão sobre nossa própria saudade. Confira:

De uns meses pra cá comecei a sentir uma coisa que eu nomeei “saudade de perto”. Explico: não é aquela saudade advinda da distância de tempo e/ou espaço, mas uma sensação de algo perdido mesmo quando se está junto. Sabe aquele filme que saiu de cartaz e você não viu? O atraso que lhe fez perder o início do jogo? Aquele amigo que passou por aqui e não deu tempo pra conversar com ele? Aquela perda de tempo que se tem quando se está imerso no trabalho e você só se toca depois? Acho que é mais ou menos isso.

O tempo vai passando e algumas coisas lhe pedem um novo foco. E se você não gira a cabeça pra luz, quando viu, já era. Os filhos, por exemplo, vão crescendo e construindo suas vidas à parte da sua. O quarto fica mais vazio, a sala e a casa ficam maiores. Eles estão ali, a poucos metros. Mas o coração deles já bate por outras plagas, viagens, anseios. Suas palavras formam ecos enormes entre os vãos. Gosto do silêncio, mas de repente eu me encontro quase falando sozinho. Não que eles não lhe amem mais, só estão em outra dimensão, paralela.

Os amigos, os que são bons mesmo, permanecem. Com eles, porém, há uma falta costumeira. A costura do cotidiano não se desenha com aquelas linhas. Eles sempre guardaram certa distância de você. Não de coração, mas de presença. São vidas próprias, por mais que integradas. O que seria de nós sem os amigos? Nós não nos tornaríamos o que somos sem o afeto que vem deles: nos percebemos mais humanos e integrados coletivamente.

Neste contexto, por mais que você ache que se basta, é recomendável um bom paceiro ou parceira para partilhar a existência. A aposta é que ele vai ficar do seu lado, se não para sempre, por um bom período de tempo. Aí, meu caro, se dá uma coisa curiosa: caso o outro não lhe preencha com a presença no presente, se há somente uma nostalgia do passado sustentando a relação, temos, evidentemente, um problema de futuro.

Mas a pior “saudade de perto” que conheço é, sem dúvida, a de si mesmo. Admirarmos, qual narciso, aquilo que já não somos. Evidente que boas lembranças são excelentes justificadoras da existência. Contanto que sejam tratadas como tal. Prender-se a um idealismo de ontem pode lhe impedir de andar adiante. Além de lhe aferrar a conceitos que não abarcam mais a realidade. Pela riqueza de significado que esta palavra – exclusiva do nosso português – produz, é bom tratá-la com o devido carinho e deferência.

*Demétrio Andrade
Jornalista e sociólogo.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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