Esclarecimentos necessários

Editorial do O POVO deste sábado (28) ressalta suspeições das reais motivações do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Confira:

A semana chega ao fim com os brasileiros perplexos com mais uma saraivada de gravações de diálogos privados entre figurões do mundo político, em torno do destino da República, visto sempre segundo o prisma de interesses nada republicanos. Um dos mais graves deles levanta suspeições sobre as motivações reais do impeachment, uma iniciativa que está mexendo com os referenciais básicos do Estado Social Democrático de Direito: as fontes de sua legitimidade.

Pelo conjunto das revelações já vindas a público, o processo do impeachment adviria não do flagrante de um crime de responsabilidade da titular do Poder Executivo, mas de uma articulação artificial para provocá-lo, com vistas a servir de cortina de fumaça para a obtenção de objetivos de contenção da Operação Lava Jato, de modo a livrar implicados ainda não levados a julgamento. Isso sem falar das movimentações mais profundas de segmentos corporativos interessados na mudança do modelo econômico para atender demandas próprias, ainda que legítimas.

Para o bem da paz pública, é imperioso que os esclarecimentos sejam feitos de forma clara e peremptória por todas as instituições – após investigação exaustiva -, já que, infelizmente, se tornou normal neste País dar crédito a qualquer gravação de conversas sigilosas, sem se atentar para a comprovação prévia de seu conteúdo e os propósitos reais que as movem.

Nestes momentos de transição política, é importante ancorar-se na legitimidade da soberania popular e nos lastros seguros da Constituição.

Relativizá-los é ingressar no mar revolto do casuísmo e do voluntarismo, abrindo brechas nas comportas da legalidade.

Ainda que alguns possam exercer a prerrogativa legítima, como cidadãos, de postular reformas profundas na economia e no Estado, e até se articular para tanto, buscando convalidação junto a segmentos de grande poder de fogo, isso não anula a exigência de tramitação pelos condutos da legitimação. Se algum segmento se arrogar o direito de passar por cima dessa exigência, a isonomia será exigida por quem discordar, e aí o Estado Social Democrático de Direito iria pelos ares. É isso que é preciso evitar a todo custo.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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