Estaleiro no Titanzinho pode virar presente de grego?

O professor Dardano Nunes de Melo volta a abordar a polêmica em torno da localização do futuro estaleiro Promar. O governador Cid Gomes quer o projeto na praia do Titanzinho, enquanto a prefeita Luizianne Lins é contra. Confira o artigo:

Estaleiro – Presente de grego?

Certamente que o conflito político entre Cid Gomes e Luizianne
Lins é diferente daquele que causou a guerra entre Gregos e
Troianos(1.300 a 1.200 a.c), mas pode ter nuances parecidas. Tudo
ocorreu devido ao rapto de Helena, que era esposa do rei Meneleu(não
confundir com o secretário de planejamento de Luizianne), quando
Paris, filho do rei Priano de Tróia foi a uma reunião em Esparta e se
apaixonou pela rainha. O rei magoado, em represália, designou o
general Agamenon para atacar Tróia e trazer Helena de volta. A refrega
durou 10 anos e nesta luta morreram heróis como Heitor e Aquiles. O
fato mitológico foi real, já comprovado por sondagens arqueológicas na Turquia feitas pelo alemão Heinrich Schliemann. O filho de Aquiles,
Neptoleno presenciou a vitória dos Gregos que utilizaram a estratégia
de Odisseu, ou seja, foi construído por Epeu um grande cavalo de
madeira onde vários soldados gregos ficariam escondidos, o qual seria
entregue aos Troianos como presente e um símbolo de paz. Com o gesto os Troianos se consideraram vencedores e comemoraram até a exaustão e dormiram. Assim os gregos saíram do cavalo e abriram os portões de Tróia para que ela fosse invadida e destruída totalmente.

Sendo o estaleiro um grande presente dos empresários Valdomiro
Arantes e Paulo Haddad (PJMR) para o povo do Titanzinho, a redenção
econômica e social do lugar se faz necessário examinar com muito
cuidado o que tem por dentro deste presente (cavalo). O governador o
achou lindo (1.000 empregos diretos e 5.000 indiretos) e ainda
aumenta-o com sessenta milhões de reais.

A Prefeita de Fortaleza parece ter lido os poemas de Ilíadas e Odisséia escritos por Homero (VIII a.c) e a saga da luta, por isto alerta, como responsável maior pelos destinos de Fortaleza, para muitos pontos que podem transformar o estaleiro num cavalo de Tróia.

O planejamento da cidade não previa um estaleiro na capital, pois ao longo dos últimos anos Fortaleza viu o setor industrial migrar para a periferia metropolitana e a cidade se tornar um centro de serviços e pólo de turismo nacional e internacional. A vocação natural e mercadológica da cidade é para o turismo que gera 15% dos empregos e
28% do PIB. A importância desta atividade é tamanha no que tange a
geração de emprego e distribuição de renda que apenas um hotel 5
estrelas com mil leitos gera muito mais empregos que o Estaleiro, ou
seja, 1.500 empregos diretos(índice 1.5 de empregabilidade por leito
-OMT) e 13.500 empregos indiretos (índice 1 para 9- OMT), índices bem
superiores ao da indústria. Vale observar que os empregos indiretos da
indústria, principalmente do Estaleiro será gerado noutras regiões
fornecedoras, enquanto a cadeia produtiva do turismo é quase
totalmente local.

A característica do emprego na indústria é bem diferente do turismo. No caso da metalúrgica (Estaleiro) é de caráter pesada e altamente especializado. A formação da mão de obra exigirá qualificação superior e técnica (universidades e escolas técnicas) com pré-requisitos de formação elevados e tempo de formação de 2 a 5 anos e no caso do Titanzinho a escolaridade é baixa juntamente com o IDH. A indústria tem elevada tecnologia de automação (pouca absorção de mão de obra). A geração dos 1.000 empregos se dará na construção do
equipamento (mão de obra de baixa qualificação) e quando do
funcionamento os empregos se afunilarão.

No turismo, a indústria é leve e pouco especializada, o pré-requisito é nossa nativa hospitalidade para a maioria das funções é de alfabetização e primário, com tempo de formação de 3 a 6 meses. O turismo é uma oferta de serviço de elevada absorção de mão de obra e gera muito mais empregos no funcionamento do hotel do que na construção. Os salários médios pagos no estaleiro é de R$ 900,00(novecentos reais), o que não diferencia muito do turismo. O planejamento não é uma ciência estática e em função da dinâmica
ele pode modificar até mesmo o plano diretor, a legislação, etc.

Entretanto esta dinâmica tem que ser evolutiva e voltada para um
sentido racional de sustentabilidade econômica, social e ambiental,
tudo visando o melhor para a sociedade. No caso do estaleiro há que
aprofundar estudos que possibilitem tomadas de decisão certa.
Um dos pontos a serem definidos é a compatibilidade ou não do
Estaleiro com o turismo, principal diretriz do desenvolvimento de
Fortaleza e para onde estão acorrendo os maiores investimentos; Centro de Feiras, Aquário, Copa do Mundo, Projeto Orla, etc, representando bilhões de dólares. Será que o Estaleiro não está na contramão destes investimentos? Pelas características urbanísticas da cidade a paisagem de um estaleiro no Titanzinho, sem dúvida, não seria cartão de visita para a cidade, mas ninguém melhor do que o próprio turista poderia responder o que eles acham da localização, já que eles são os compradores do produto Fortaleza e os geradores dos empregos. Eles deveriam ser os primeiros a serem consultados.

O estaleiro vai impactar um espaço que é da população do Titanzino, assim eles também deveriam opinar e por fim auscultar também o cidadão fortalezense, já que o estaleiro será na cidade. A tendência dos tanques do porto é migrar para o Pecém, a Transnordestina vai para o Pecém, o plano diretor do Pecém prevê estaleiros, por que então não construí-lo lá? A resposta esta na economicidade da obra, no custo benefício, mas isto do lado do empresário, que esconde dentro do cavalo de Tróia (Estaleiro) suas  intenções prioritárias de lucro e não de ajudar a comunidade e sem preocupação com sustentabilidade turística, urbanística e ambiental.

Será que o estaleiro vai gerar para a cidade mais empregos e impostos
do que se deixará de ganhar com a retração do fluxo turístico que
possivelmente causará? O senhor Valdomiro Arantes afirmou:- “o estaleiro terá um faturamento, no primeiro ano, de 200 milhões de dólares, logo nos cinco anos serão hum milhão de dólares com os contratos da Transpetro”. Ora, com o pré-sal a Transpetro fará novas encomendas, a Vale esta com um pedido de 52 navios, os Árabes que tiveram seus estaleiros destruídos pelas guerras estão cheios de pedido e por ai vai (60 bilhões de dólares). Se existe mercado, a empresa é sólida, e o Ceará tem uma localização estratégica em função da eqüidistância (Europa-EUA) para receber os componentes para fabricação das embarcações, além de possuir “maritimidade”(cultura com o mar), a industria não é sazonal, porque as ações são imediatistas e meramente economicistas de curto prazo? Isto leva a entender que a PROAMAR fará somente a encomenda da Transpetro e irá virar um entulho de ferro no Titanzinho. Ela não esta acreditando no mercado e nem esta respeitando a tendência do futuro do Ceará; Tudo de Porto no Pecém, industrias no Interior e região metropolitana e em Fortaleza serviços e turismo.

O alerta da Prefeitura também refere-se à possibilidade de graves
impactos ambientais na cidade e arredores em função do grande aterro(4 hactares ), a produção de lixo mineral, o impacto na biologia
marinha, etc… Outros aspectos devem também ser levados em conta como impacto social na mudança das atividades de pesca e desporto(surf) da população, a degradação social e econômica das pessoas do bairro caso o mercado encolha e o Estaleiro feche. A ampliação das estruturas portuárias levam sempre, em todo mundo, o aumento da prostituição, fato muito negativo para o turismo saudável da cidade. A
incompatibilidade do Estaleiro com o projeto de urbanização da área.

Estes fatos conjugados podem transformar o estaleiro num presente de
grego. Os deputados do PSDB, PMDB e alguns do PT de Cid, nas audiências pública, pareciam cruzar o mar Egeu para atacar Tróia como guerrilheiros do rei(Cid) e defendiam a qualquer custo a geração dos 1.000 empregos para a comunidade. Não raciocinavam eles que os 60 milhões da contra-partida do Estado para a construção do Estaleiro
poderiam representar 15.000 empregos diretos e 60.000 indiretos se
fossem aplicados no Titanzinho em cooperativas de economia solidária
dentro da cadeia produtiva do turismo, no contexto de um distrito
temático (o celebre navegador espanhol Vicente Ianez Pinzon-
descobrindo o Brasil no Rostro Hermoso de Fortaleza 4 meses antes de
Cabral avistar o Monte Pascoal e ou o Castelo Encantado do Mucuripe
onde Iracema a virgem dos lábios de mel ia chorar a saudade de Moreno o amado guerreiro branco de alem mar).

Qual a diferença entre Luizianne e Cid? O capitalismo liberal(neoliberalismo) tem uma mão invisível que é a força do mercado, ela impera e manda e a população obedece. Ela é a lei que todos devem curvar-se. Na social democracia participativa as políticas são orientadas pelas pessoas, onde a vontade da maioria predomina. Cid e o PSDB vem da escola de Adam Smith e por isto atropelam as políticas participativas de Luizianne e do PT. O que não combina são os estilos de condução dos processos de gestão de Cid e Luizianne. A gestão compartilhada é muito mais difícil, lenta, filosófica, pragmática, busca a decisão coletiva e descentralizada, controle menos rígido, variáveis intangíveis, valoriza mais os objetivos que as metas, o principal é o bem estar social. A gestão liberal vai na direção do mercado, é mais fácil, individual, centralizada, rápida e menos pragmática, 100% de controle, variáveis tangíveis, trabalha mais com metas do que com objetivos, o principal é fazer caixa para investimentos em infra-estrutura básica e produtiva.

Qual dos dois modelos é o melhor? O melhor seria a junção dos dois e o velho prefeito Juraci Magalhães certa vez me disse uma coisa que até hoje, como profissional do planejamento fico a pensar em como compatibilizar; o “fazejamento” e o planejamento; eu levo minha gestão fazendo e planejando, planejando e fazendo. Vendo seu estilo aprendi um pouco. Ele fazia uma participação direta ouvindo a população nos bairros( a coleta da informação era feita por ele mesmo), mas infelizmente não era bem discutida, por outro lado ele não perdia tempo e fazia, principalmente aquilo que não tinha que se discutir, era para ontem. Se os estilos de Cid e Luizianne fossem iguais, talvez não estivesse havendo esta polêmica do Estaleiro e quem sabe ele seria um presente do bem e não um presente de grego.

Dárdano Nunes de Melo
Prof. do IFCe e diretor do Sindicaturismo

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

3 comentários sobre “Estaleiro no Titanzinho pode virar presente de grego?

  1. Chega de colocar o “capital” sempre em primeiro lugar.Sei que os pensamentos e raciocinios estão viciados ,capital,emprego, não se admite que o meio ambiente, a bela vista, prazer de ter um lugar como o titanzinho parece bobagem. Depois as mesmas pessoas que querem um estaleiro no titanzinho,criticam a postura do Japão e os Estados Unidos em relação ao meio ambiente.Vamos renunciar a pequenas tentações antes que essas tentações economicas nos engulam de vez.

  2. Chega de dados tecnicos ,científicos, foram esses especialisatas
    que dexaram o meio ambiente nesse estado lastimavel. Vamos salvar o que nos resta com amor e sem tecnologia de “embromação”. Existe tecnologia descomprometida do capital? existe capital descomprometido com o lucro? Salve o Titanzinho!

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