Evoé, Chico Buarque!!

Com  o título “Evoé, Chico!”, eis artigo do juiz estadual, professor e escritor Mantovanni Colares. Ele festeja os 73 anos de vida do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda, mas destacando o escritor. Confira:

Francisco Buarque de Holanda completa 73 anos de idade hoje, dia 19 de junho. E não quero falar do Chico por demais conhecido e suas marcantes canções, muitas delas incorporadas ao nosso patrimônio sentimental. Talvez porque eu ainda esteja sob a emoção da leitura de seu mais recente romance, “O Irmão Alemão” (2014), cuja última página foi por mim dobrada com um nó na garganta, lágrimas na antessala dos olhos, a mostrar que Chico está cada vez mais íntimo das palavras que são seu universo; talvez por isso eu deva falar desse Chico atual, o Chico em seu mais alto grau de maturidade, a produzir, escrever, compor, esse Chico que em 2011 nos legou um trabalho insuperável, em total e exclusiva homenagem à mulher – o CD “Chico” debulha, ao longo de todas as músicas, fortes alegorias do amor entre o homem e a mulher –, seja o amor traiçoeiro (Querido Diário), o amor roubado (Rubato), o amor juvenil (Essa Pequena), O amor fora de hora (Tipo um Baião), o amor inevitável (Se eu Soubesse), o amor melancólico (Sem Você nº 2), o amor malandro (Sou Eu), o amor virtual (Nina), o amor na memória (Barafunda) ou o amor impossível (Sinhá).

Entretanto, falar em Chico é também viajar no tempo, inevitavelmente. Por exemplo, Chico compôs “Sonho de um Carnaval” com 20 anos de idade (a canção é de 1965) e a inscreveu no I Festival Nacional da Música Popular Brasileira, mas a canção sequer ficou entre as cinco primeiras músicas, sendo que a vencedora foi “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, como lembra Wagner Homem no melhor livro até hoje escrito sobre cada música do universo buarqueano (“Histórias de Canções: Chico Buarque”, da Editora Leya). Naquela distante década, mesmo ainda muito moço, Chico já sinalizava que, para bem compreender sua obra, impõe-se estar atento aos detalhes.

O samba fala, por óbvio, de um sonho de carnaval, no qual todos estariam irmanados no mesmo sentimento de solidariedade e paz, embora o desejo se encerre na quarta-feira de cinzas, e ainda assim a esperança permanece. O detalhe é o do verso final: “Que gente grande saiba ser criança”. Reparem: “saiba ser”; não é “volte a ser” (impossível) ou “seja” (fica ridículo substituir-se por algo que se não é). “Saiba ser” significa seja adulto, mas também saiba ser criança, saiba aproveitar o bafejo do sol amanhecendo e inundar os olhos com a brancura da lua que surge. “Saiba ser criança” é não guardar rancor, como há muito nos ensinava José Saramago ao dizer que “(…) não há rancor nas crianças, é o que as salva” (“A Jangada de Pedra”, da Editora Companhia das Letras). “Saiba ser” é sabedoria.

Há mais de cinquenta anos, Chico nos indicava o necessário cuidado ao ouvir suas canções. E para nossa sorte e privilégio, o Chico com seus 73 anos continua a compor; dizem por aí que ele está às voltas com a música, mastigando composições, em possível gestação de um CD para o ano próximo. Portanto, nós é que somos presenteados pelo aniversariante, pois certamente ainda haveremos de desfrutar em largos afetos da obra desse Artista Brasileiro. Evoé, Chico!

*Mantovanni Colares,

Juiz estadual, professor e escritor, lembrando que “evoé!” é um grito festivo, a saudar o deus do vinho (Dioniso para os gregos e Baco para os romanos), utilizado por Chico em “Paratodos” (1993), ao homenagear os grandes compositores e cantores da música brasileira: “Evoé, jovens à vista”.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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