Fracasso no controle da elite do poder

Em artigo no O POVO deste domingo (13), o Mestre em Filosofia, professor da UFC e sociólogo André Haguette diz que as gerações estão presas à mesmice que prevalece na política, única instituição que poderia controlar a concentração da riqueza e do capital da elite do poder em prol de uma nação mais coesa e até dos interesses burgueses. Confira:

Em entrevista a Mario Sérgio Conti, na Globo News, Noam Chomsky, um dos grandes mestres da linguística e crítico social, explicou que a razão fundamental do atraso da América Latina e, portanto, do Brasil foi “o fracasso de sua sociedade em controlar a concentração da riqueza e do capital da elite do poder e lidar com o radical problema da desigualdade”. Esse fracasso deixou a elite brasileira livre para moldar o País de acordo com seus interesses individuais e de classe. Desde os primórdios da Colônia, a elite dividiu o País e se descolou do resto da sociedade, praticando uma luta de classes aguerrida, não se preocupando em construir um país embasado na tríada burguesa de liberdade, igualdade e fraternidade.

Primeiro, com a casa-grande e a senzala e o massacre dos indígenas e, em seguida, pela montagem de instituições que lhe são favoráveis: latifúndio, escola para seus filhos, medicina privada, bairros residenciais segregados e condomínios fechados, transporte individual pelo caro, impunidade etc. Dessa forma, suas necessidades atendidas, ela nunca se dedicou a resolver os problemas da escola, saúde, habitação e do transporte públicos, deixando uma legião de homens livres numa ordem capitalista à sua própria sorte, mas a seu serviço e sob sua dependência.

A elite do poder fez mais: sequestrou o Estado para si, tratando-o como extensão de seu patrimônio, apropriando-se de suas terras, de seu erário e de seu poder. A elite econômica vive pendurada em subsídios estatais como os do BNDES e de outros bancos de fomento; em pesquisas e inovações financiadas pelo poder público; em conluios com o aparelho público; em benesses fiscais, judiciais e prisionais; em um sistema tributário regressivo etc. Nos últimos anos, os subsídios recebidos pelas indústrias equivalem a 77 vezes o montante investido no Bolsa Família, sem falar da corrupção e da remessa de bilhões em paraísos fiscais, recursos subtraídos do desenvolvimento interno. As elites políticas continuam dividindo o País com a multiplicação calculista e obscena dos partidos políticos, a exorbitância do financiamento de seu pífio funcionamento, seus conluios com a iniciativa privada, suas campanhas eleitorais corruptas e corruptoras, sua benevolência com os crimes de colarinho branco, suas negociações de votos em troca de emendas parlamentares e cargos e, sobretudo, sua incapacidade de aprovar leis, institutos e instituições visando ao bem geral. Que dizer das elites sindicais com seu apetite pelo imposto sindical e o peleguismo; do Poder Judiciário com suas regalias de nobreza, incluindo um odioso auxílio-moradia e das elites acadêmicas dissociadas do ensino básico público? O público, às favas!

À maior parte da sociedade, bestializada, resta o conformismo ou a violência na espera de uma nova maneira de fazer política, que poderia ter resultado da promessa que representou pelo PT, mas que foi traída.

Daí uma fatiga trágica em ver que gerações passam e a mesmice prevalece na política, única instituição que poderia controlar a concentração da riqueza e do capital da elite do poder em prol de uma nação mais coesa e até dos interesses burgueses.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

Um comentário sobre “Fracasso no controle da elite do poder

  1. Li, ontem, o artigo do professor. Todas as discussões, no varejo, são vãs, a grande verdade está no texto. Por isso, a solução está muito distante. Parabéns ao professor Haguette e ao blog por reproduzir importante análise

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