Futebol, política e o direito à argumentação

Com o título “Política e futebol se discutem, mas não são a mesma coisa”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade, ele vê diferenças entre provocações entre torcedores e paixão política. Confira:

Já discorri, em outros artigos, sobre um verniz de ódio que vem cobrindo as discussões nas alcunhadas “mídias sociais”. Notadamente no twitter e no facebook, é corrente a falta de educação e de respeito não só à opinião alheia, mas às próprias pessoas. Nos meios de comunicação de massa, se nota procedimentos semelhantes. E isso é injustificável. Além do que, acaba limitando as discussões políticas a um grau rasteiro e melancólico.
Tenho uma tese calhorda que costumava compartilhar com o Eudes Baima – a quem aproveito pra mandar um abraço pelo aniversário – de que futebol não tem ética. Claro que é um ponto de vista que se desmonta facilmente, posto que qualquer atividade social possui regras morais, mas é ótimo pra criar polêmica. Porque se tem uma coisa interessante e que mantém vivo o interesse pelo futebol é a provocação, a paixão e as brincadeiras entre torcidas, práticas que, aliás, nada têm a ver com violência. Eu mesmo já cometi meus excessos. Mas defender partidos e ideologias usando a mesma lógica de torcedor é um equívoco monstruoso.

Num ano eleitoral como este, a tendência é que as trocas de farpas desçam a uma profundidade abissal. Vale lembrar a frase de Voltaire: “posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”. Trata-se de um acordo essencial quando se vive numa democracia. Ninguém é obrigado a concordar com ninguém. Diga-se de passagem, isso fere de morte o objeto central da política, que é o de construir consensos coletivos numa sociedade eivada de individualidades e de interesses e pensamentos divergentes de milhares de grupos. Caso você não concorde, experimente argumentar invés de agredir.

A convivência entre diferentes deve ser a nossa meta: é saudável, é bonito e é a única forma de crescermos nessa difícil e maravilhosa arte de viver. Aprender com os nossos erros e acertos, bem como com os erros a acertos alheios. Minha mulher me disse certa vez que prefere ser feliz a ter razão. Em algumas situações, de fato, nem vale a pena discutir. Acho triste optar por perder o prazer da convivência com alguém em nome da minha verdade. As coisas não precisam chegar a este nível.

Em tempo: não compartilho desta tese. Acho que política e futebol – assim como quaisquer outros assuntos – podem e devem ser discutidos. Mas dentro de arenas apropriadas e com interlocutores exercendo a tolerância como dever. Não podemos perder o direito de argumentar, militar e levantar nossas bandeiras. É um direito pelo qual muitos tombaram. Mas se política é também um exercício de convencimento, é bom lembrar que qualquer criança sabe que não se ganha simpatia de ninguém à força.

* Demétrio Andrade
Jornalista e sociólogo.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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