A greve da PM no Espírito Santo e um passado não tão distante no Ceará

Com o título “A Revolta dos fardados”, eis artigo do jornalista e escritor Paulinho Oliveira. Ele aborda o caos provocado pela greve da PM no Espírito santo e seus reflexos políticos e eleitorais. Teriam esse cenário semelhanças com um passado registrado no Ceará? Confira:

Que o Espírito Santo nos proteja, é o que pedem normalmente os cristãos, especialmente os mais fervorosos católicos e evangélicos. Porém, há uma semana, o Estado brasileiro que tem o nome do Espírito Santo vive em um turbilhão de eventos que, definitivamente, não são nada abençoados.

Tudo começou no dia 4 de fevereiro, quando esposas de policiais militares formaram uma barricada humana para impedir a saída de viaturas dos batalhões, como forma de pressionar o governador Paulo Hartung (PMDB) a atender às várias reivindicações da categoria, dentre as quais reajuste salarial, realização de novos concursos públicos e aumento do efetivo. Por trás, porém, associações de militares, notadamente cabos e soldados, inflamam o movimento grevista – que pode até ser justo aos olhos dos simpatizantes, mas é ilegal e inconstitucional.

O resultado foi um verdadeiro caos no Estado, por dias e dias não noticiado pelas grandes corporações de mídia. Só a partir de hoje, o assunto virou pauta na Rede Globo, por exemplo, com inserções em programas como Bem Estar e Encontro com Fátima Bernardes, além dos telejornais e de ampla cobertura do canal GloboNews. Nas demais redes de televisão, coberturas muito tímidas e análises superficiais, limitando-se a dois polos de discussão: a busca pela valorização do profissional policial militar e a irresponsabilidade de se deflagrar uma greve da categoria, colocando uma população inteira à mercê de criminosos.

A greve dos policiais militares do Espírito Santo, porém, revelou uma faceta que poucos se deram conta – ou têm coragem de encarar de frente. Saques em variadas lojas de eletrodomésticos no Centro de cidades como a capital Vitória eram realizados por pessoas das mais diversas classes sociais. Cidadãos que se aproveitavam do caos para furtar – o termo é esse – bens de consumo para cuja aquisição deveriam pagar ao fornecedor. Cidadãos que podem ter feito parte dos movimentos para derrubar o governo da presidente Dilma Rousseff e o PT, sob a alegativa de “combater a corrupção”. Esses que saquearam as lojas são, sim, os verdadeiros corruptos e se revelam exatamente nesses momentos de crise. Porque é nas horas de crise que vemos o que está por trás de cada ser humano.

Nesse sentido, o movimento paredista dos militares do Espírito Santo guarda muitas semelhanças com outro movimento (igualmente ilegal e inconstitucional), ocorrido no Ceará, entre o fim de 2011 e o começo de 2012, que acabou tornando notória a figura de seu líder máximo, o Capitão Wagner, hoje deputado estadual pelo PR – Partido da República e que, por muito pouco, não foi eleito prefeito de Fortaleza em 2016. O capital político ganho pelos policiais militares rebelados foi tanto que, além de fazer o Capitão Wagner deputado estadual com votação recorde em 2014, elegeu o Cabo Sabino, também do PR, para a Câmara dos Deputados e, em 2016, o Soldado Noélio, do mesmo partido, para a Câmara Municipal de Fortaleza.

Sendo assim, não duvido muito que, nas eleições gerais de 2018, muitos desses líderes do movimento paredista ilegal e inconstitucional do Espírito Santo tenham o mesmo destino do Capitão Wagner, do Cabo Sabino e do Soldado Noélio no Ceará – votos e mais votos levando-os aos espaços de poder. No fundo, é isso o que move as associações militares que encampam greves como essas – um projeto de poder que nada tem a ver com proteção à população. Até porque proteger a população nada mais é que obrigação da polícia, seja ela militar ou civil, daí porque greves em tais categorias devem sempre ser olhadas com desconfiança – ainda que sejam aparentemente nobres os motivos das paralisações.

Esta é a questão que deve ser posta em debate – aqueles que deveriam nos proteger se rebelam de forma ilegal e inconstitucional, para, depois, ocuparem espaços nas instâncias de poder geridas pela mesma Constituição que rasgaram ao fazerem greve sem poder. Com o tempo, mais e mais policiais sendo eleitos e, de repente até, formando maiorias, como ficará o Estado Democrático de Direito? Como seria, de repente, sermos governados por representantes de uma categoria que, muitas vezes, no lugar de proteger a população contra criminosos, tratou manifestantes como bandidos e se ocupou em reprimir os movimentos sociais legítimos e democráticos?

Que o Espírito Santo – o Estado – seja protegido. E que o Brasil reflita sobre o caminho que está percorrendo, de forma muito perigosa.

*Paulinho Oliveira,

Escritor e jornalista

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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