Moro onde você faz compras

Em artigo no O POVO deste sábado (22), o jornalista Paulo Renato Abreu comenta da experiência de morar no Centro. Confira:

Há um ano tomava uma decisão polêmica: morar no Centro. De um lado, meu pai preocupado com a violência. Do outro, minha mãe achando que eu não ia me adaptar. Eu era só alegria ao saber que iria andando para o trabalho. Troquei a migração pendular de uma hora em trânsito de Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza, até a avenida Aguanambi, 282, por dez minutos de caminhada. Quando mudei, me lembrei daquela frase exibicionista meio boba: “Moro onde você tira férias”. Passei a morar onde as pessoas fazem compras.

Descobri, passado um ano, que viver no Centro muda a lógica cotidiana. Na primeira manhã no bairro novo, já aprendi que o burburinho de buzinas e o barulho de gente ávida por compras surgem junto com o sol.

Percebi também que o bairro amanhece sujo, apesar da limpeza diária. Não são nem 8 horas e já tem muitos copos descartáveis e sacos plásticos correndo o chão. Outro susto foi confirmar a escura solidão que é o Centro à noite. Descer do ônibus na Duque de Caxias, às 22 horas, desperta instintos de uma insegurança incomum.

Por outro lado, poder ir e voltar andando da Praça do Ferreira e estar mais perto do Passeio Público me trouxe outras possibilidades de aproveitar o dia. A diversidade de padarias, farmácias e supermercados também agradou. Corridas de táxi não me assustam mais. Além, claro, da experiência bonita que é aproveitar um fim de tarde na mal cuidada Cidade das Crianças. Algumas coisas acabaram perdendo a graça, o Leão do Sul, por exemplo, foi ficando de lado e as barraquinhas de tapioca me conquistaram.

Entre um agosto e outro, o melhor presente foi ver o Centro ganhando atenção com o Pacto em Ação, projeto da Câmara dos Vereadores que dá protagonismo ao Centro em meios às proposições do Pacto Revisado por Fortaleza. O objetivo é cuidar do bairro para que ele vire local de moradia de mais gente. O prefeito anunciou US$ 250 milhões para um projeto de desenvolvimento urbano do Centro. Resta, porém, saber como o recurso será aplicado e se isso vai ou não me garantir novos vizinhos.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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