Nem sempre filho da p.

Em uma crônica enviada ao Blog, o jornalista Nicolau Araújo revela uma peça publicitária que não foi usada na campanha à Prefeitura de Fortaleza da então candidata Patrícia Saboya (PDT), quando no empate técnico com Luizianne e Moroni, em julho de 2008. Na época, o autor da crônica era coordenador de comunicação da candidata. O jornalista solicita a publicação, não por causa do momento do futebol com a política, mas para homenagear a mãe mais injustiçada do mundo: a do árbitro de futebol. Confira:

Manhã de domingo e a cidade não fala em outra coisa: a final do campeonato municipal de futebol, disputado de quatro em quatro anos. Para tentar impressionar a mídia esportiva, o time ganhador da última temporada tenta superlotar a arquibancada da não mais extrema esquerda do estádio, construída de improviso em dois dias por uma empresa terceirizada, que terceirizou o serviço para outra empresa, que por sua vez terceirizou para uma outra empresa, que o terceirizou para uma outra empresa…

Como forma de engan… de incentivar sua torcida a comparecer a todo custo ao estádio e preencher as arquibancadas improvisadas, os dirigentes do clube espalham que o valor da passagem em seus ônibus tem um descontinho especial no domingo.

Torcidas animadas, times em campo e no que a partida está bastante disputada, eis que o árbitro resolve inovar:

– Priiiii… Renato Roseno!

Os atletas param e nada entendem, mas o árbitro prossegue:

– Falta técnica. O jogador está simulando agressão.

Alguns minutos depois, nova marcação:

– Priiiii… Sílvio Frota!

Novamente, os jogadores param e aguardam a conclusão do árbitro, que de imediato assinala:

– Impedimento.

Bola espirrada pela zaga e mais uma marcação:

– Priiiii… Luís Gastão!

Esta, ninguém espera a conclusão: escanteio.

Aos 25 minutos, o zagueirão acerta o tornozelo do atacante com uma tesoura por trás. E o árbitro não tem dúvida:

– Priiiii… Moroni!

E conclui com o cartão vermelho ao alto:

– Falta violenta!

– Dá uma chance, foi culpa do campo. Tá todo esburacado e cheio de lama! Lamenta o zagueiro.

No final da primeira etapa, um jogador, não mais suportando tanta improvisação, decide protestar junto ao árbitro:

– Pô, seu juiz, dá pru senhor seguir as regras direitinho?.. Será que eu tenho que ler as regras para o senhor? Só assim vai dar tudo certo.

O árbitro o encara e novamente leva a mão ao bolso, dessa vez para puxar o amarelo:

– Pri. Pastor Neto.

E conclui:

– Advertência por reclamação.

No intervalo da partida, a arquibancada improvisada desaba. Crianças e senhoras vão ao chão, em meio a uma estrutura metálica enferrujada, que era sustentada por pedaços de arames e calçada por tabuinhas apodrecidas.

– Foi sabotagem! Adianta-se o chefe da segurança, aos microfones das rádios, como forma de encobrir o superfaturamento do custo da obra.

– Ninguém morreu! Ninguém morreu! Festa é assim mesmo! Esquiva-se a pref… a presidenta do clube, em meio ao choro assustado de crianças e a dor de mais de 50 feridos.

– Ninguém morreu! Insiste a mulher sem coração.

Diante de uma imposição da segurança do estádio, o segundo turn… o segundo tempo é iniciado, mesmo com os feridos aguardando atendimento no maior hospital da cidade e nos outros que deveriam servir de apoio. Dizem que a previsão de leito é para seis meses.

– Seis meses eu posso garantir. Depois disso… eu não costumo me programar para depois de seis meses. Disfarça a pref… a presidenta do clube, diante da indignação dos repórteres e parentes dos feridos.

Aos 12 minutos, em um desempenho espetacular, o ataque avança com muita saúde, dribla com educação os truculentos zagueiros, mostra compromisso e firmeza na troca de passes e, com respeito e moral, chuta no centro do gol.

– Priiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii… Patrícia!!!

– Goooooooooolllll!!! Narra o vibrante locutor.

– Foi sabotagem! Foi sabotagem! Desesperam-se o segurança e a pref… a presidenta do clube.

Como tudo indica que a cidade terá uma nova equipe campeã, o time ganhador da última temporada tenta a todo custo mais uma prorrogaçãozinha, desde uma tentativa de suborno ao bandeira vermelha até trapacear em campo. No último Tin-Tin de jogo, o time pisa mais uma vez na bola e o jogador aproveita para se atirar na área e se fazer de vítima.

O juiz não hesita:

– Priiiiiiiiii… Luizianne Lins!

– Pênalti, pênalti!! Pressiona o time em bloco.

– É o fim…………………………………….. do jogo.

Livra-nos o bom árbitro.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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