Nos ataques a ônibus em Fortaleza, a Polícia quase ficou na parada

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Com o título “Onda de ataques a ônibus: a quem interessa?”, eis o Editorial do O POVO desta quarta-feira. Não se pode dar vez a esse absurdo que, lamentavelmente, expõe a fragilidade do aparelho de inteligência da área da Segurança. Confira:

Fortaleza está sendo acossada por uma onda de incêndios criminosos de ônibus da rede de transporte coletivo urbano. Em menos de 48 horas seis veículos foram queimados em ações realizadas em bairros periféricos da capital, incluindo a área metropolitana.

As hipóteses concentram-se na possível retaliação de criminosos após a morte de dois detentos no sistema penal, no último domingo. Será? As coisas apresentam-se (inclusive as hipóteses) como se fossem uma réplica do que sucede no Sudoeste do País. Já chegamos, realmente, a esse nível de sofisticação criminosa, no Ceará? Quais razões teriam para ativar a reação repressora das polícias e se autoprejudicarem (não só em relação ao livre trânsito dos grupos criminosos, mas, à própria vida interna nos presídios, alterando sua rotina – uma das coisas mais detestáveis para os presos?).

Por outro lado, é muito estranho, por exemplo, que isso venha seguido de um ataque a tiros à sede da Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus), no último domingo à noite. Pode ser lida, também (além do aspecto intimidação, um tanto quanto sem nexo) como uma tentativa inidentificável de criar uma desestabilização mais ampla, de teor ainda obscuro? As perguntas são muitas.

Mais uma vez, revela-se aquilo que já é conhecido: a fragilidade do nosso sistema de segurança pública e a necessidade de desenvolver uma ampla rede de informação. Mas, isso não se faz apenas com quadros específicos, mas com a cooperação da população. Para obter esta, é necessário entender que a questão da segurança pública não deve ficar centralizada nas mãos das polícias, mas numa instância política coordenadora que tenha possibilidade de articular as políticas públicas de uma forma geral, pois a violência não consegue ser resolvida apenas com repressão.

Outras dimensões dessa violência estão centradas nas próprias polícias, erodindo a confiança que a população poderia ter nelas. Por exemplo, não podem deixar de ser punidos rigorosamente – se comprovado – os policiais suspeitos de espancar um homem até a morte no bairro Maraponga, na última quinta feira. A tortura e o presumível assassinato do padeiro Francisco Ricardo clama aos céus. Sem extirpar esses cancros internos, a área da segurança pública continuará a ter pés de barro para enfrentar o desafio geral.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

Um comentário sobre “Nos ataques a ônibus em Fortaleza, a Polícia quase ficou na parada

  1. Já havia escrito esse meu texto antes. Mas, acho que vem a calhar com esse editorial:
    Presenciei uma conversa sobre assunto bem atual: “black blocs” e rolezinhos. O que me chamou a atenção foi a unanimidade dos que conversavam, responsabilizando a polícia-segurança pela crescente violência. É fato que a violência atingiu níveis inaceitáveis. Mas, me causa perplexidade a visão simplista com que a maioria enxerga esse problema e a avidez em apontar UM culpado – polícia despreparada. É óbvio que o despreparo de policiais em operações de contenção de multidão acarreta consequências graves e danosas. Mas, se queremos soluções temos que, inicialmente, identificar as causas dessa escalada da violência.
    Quando um grupo incendeia ônibus, cobra-se ação da polícia. Mas, tal ação violenta decorre da ausência do vereador, do partido, do prefeito. Os autores de tão descabida violência não confiam nos poderes constituídos, nos seus representantes e, consequentemente, concluem que não têm a quem reclamar/recorrer.
    A cultura política brasileira é violenta – a história mostra isso. A violência vista na sua forma mais abrangente e sob os aspectos sociológico, jurídico e histórico tem sua origem na política – na cultura política.
    Qual o caminho? Produção de novos líderes que entendam que o império da lei é o centro da democracia, da igualdade social e da igualdade de geração de oportunidades.
    Como esperar que em um país onde os governantes em suas diversas esferas, transgride/violenta a própria lei – sobrepondo-se a ela, não seja violento?
    Fico indignada quando vejo policiais sérios e competentes sendo aviltados, nessa miopia comum.
    Existem maus policiais, tanto quanto existem maus advogados, maus médicos, maus engenheiros, maus jornalistas, maus professores, maus contadores, maus políticos, maus empresários, etc, etc, etc. Maus por diversas causas: Por serem incompetentes, desonestos e antiéticos.
    Infelizmente, caráter e ética não se aprende nos bancos escolares. Um professor pode ensinar a ética, mas não consegue ensinar ninguém a ser ético.
    É difícil falar de ética, porque são crenças, valores e normas basicamente ideológicas. É apenas uma questão de escolher que caminho seguir com a consciência tranquila de que não se estar fazendo mal a ninguém.

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