O atentado e o jeito francês de ser

Com o título “Je suis Charlie”, a liberdade de expressão e o direito das minorias”, eis artigo do escritor João Soares Neto. Ele fala sobre o atentado na França e conta um pouco do jeito francês de ser. Confira:

A primeira vez em que, ainda universitário, estive na França, foi no meio da década de 60. Fiquei hospedado, em Paris, no Hotel de La République, onde, por acaso, estava a simpática seleção soviética de futebol. Fiquei encantado com o país, mas notava – como me advertira o franco-cearense Gérard Boris – que o francês é, quase sempre, resmungão e não se afinava muito com os que não são de lá. O ano de 1968 ainda não acontecera.

Nesse mesmo tempo percorri quase todo o interior desse belo país, a bordo de ônibus. Um dia, uma amiga foi acometida de mal intestinal e o veículo parou em posto de combustível. Foi-nos dito que só dariam direito ao uso do banheiro se houvesse abastecimento. Enquanto a discussão acontecia, falei para a amiga resolver o seu problema. O gerente saiu soltando palavrões, mas o objetivo fora atingido.

Muitas idas depois, já neste século, passei um “réveillon” por lá. Estava defronte à Torre Eiffel, era frio. O que mais se via eram fogos de artifício, imigrantes africanos e árabes. Poucos ocidentais e orientais. Táxis não apareciam. Os metrôs – nesse dia eram gratuitos – estavam apinhados. As margens do Rio Sena pareciam uma lixeira, garrafas, papelões e latas boiavam em sua superfície. A solução foi aceitar, por preço exorbitante, o uso de carro particular, dirigido por alguém de origem arábica. Ele justificou: só há um dia deste em cada ano.

Esta introdução é pessoal, episódica, rasa, e refere que o francês nato não tem muita paciência com turistas (são mais de 75 milhões por ano, dez vezes o que o Brasil recebe no mesmo período). Ao mesmo tempo, dizer dessa mudança na origem das pessoas em grandes eventos de confraternização. Os nativos permaneciam em casa, os de fora pululavam nas avenidas e parques.

É preciso não esquecer que a França, tal como outros países europeus, exerceu o colonialismo na África, Ásia e no Oriente Médio. O fim dessa invasão ocorreu apenas no começo da segunda metade do século passado. São muitas as ex-colônias. O fato é que os nativos desses países francofônicos se acharam com o direito de procurar melhor condição de trabalho na antiga metrópole. A par disso, as 30 ditaduras que contaminam o oriente médio, berço do islamismo, promoveram o surgimento de grupos tais como o Hamas, Taliban, Estado Islâmico, Jihad, Al Qaeda, Hizbollah e Boko Haram.

Alguns desses grupos reivindicam a autoria de atentados, tais como o acontecido ao jornal “Charlie Hebdo” que, se auto intitula “journal irresponsable”. Cá para nós, o Hebdo abusou do direito de atacar a figura sagrada – para os muçulmanos – do profeta Maomé. Usava humor, sátira e até deboche. Há anos o jornal estava com apoio policial; havia sofrido processo sobre infâmia e calúnia contra islâmicos, do qual foi absolvido.

O repúdio natural e a comoção são reflexos da estupefação da maioria dos franceses e europeus. Entretanto, os dois irmãos encapuzados e autores do atentado – e mortos no dia seguinte – eram franceses de nascimento, mas filhos de muçulmanos. Uma primeira questão a se levantar: embora franceses eles foram ou não integrados aos costumes da pátria do dístico “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”?

Quem saiu lucrando com o episódio foi a direita francesa que, comandada por Marine Le Pen, culpou todos os seis milhões de muçulmanos que moram na França e tirou dividendos políticos para a próxima eleição presidencial. A imigração em massa de “diferentes” aconteceu conforme já referi acima e, ainda, por ser o país de De Gaulle famoso por abrigar dissidentes de ideologias de todo o mundo. Desde a Revolução Francesa, o discurso era esse.

Os dois autores do ataque, repito, eram franceses de nascimento. Aqui no Brasil não se costuma distinguir religião/credo ou a origem étnica das pessoas que assumem a cidadania brasileira. Na Europa, não é bem assim. Basta lembrar, por exemplo, a fricção permanente entre naturais da Alemanha e os turcos, que são grande parte da mão-de-obra local.

Particularmente, creio que a humanidade deve aproveitar o episódio para reavaliar a homilia sobre a liberdade de expressão. Ela deve ser soberana ou ter limites? Sociólogos creem que ela não é um direito fundamental absoluto. É notório que grupos minoritários de todos os matizes têm sofrido discriminações e assassínios ao redor da Terra por conta de suas raças e crenças.

Não está longe o tempo em que a Ku Klux Kan, composta por ultraconservadores dos Estados Unidos, matava negros e incendiava as suas casas. O mesmo acontecia na África do Sul até a libertação de Nelson Mandela e o fim do “apartheid”.

Deixo, então, com Mandela, a conclusão: “Não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos”.

* João Soares Neto,

Imortal da Academia Cearense de Letras.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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