O aumento dos homicídios no Ceará não é ficção

Com o título “”3.417 mortos não são ficção”, eis artigo da jornalista Iana Soares, que nos expõe a onda de assassinatos de jovens e adolescentes nos últimos dias, no Ceará. Um roteiro absurdo que expõe o aumento dos homicídios. Confira:

Muitos anos depois, diante do fuzilamento, o jovem cujo nome nunca saberemos haveria de recordar o instante exato em que viu a Pajuçara do alto, em cima de uma roda-gigante, enquanto comia um algodão-doce ao lado da moça que beijara no beco, ao meio-dia. Ainda não adivinhava o filho que agora visitara.

Yasmin deitou o vestido sobre a cama depois de prová-lo e dar voltas diante do espelho de moldura azulada. Escolheu uma cor que contrastava com a areia vermelha de Pentecoste. Não sei se ensaiou a descida pelas escadas, se haveria escadas ou se os ciganos que passaram por Macondo também assistiriam à festa da menina que dançaria valsa e Anitta. Atravessada por uma bala, rasgou o tempo. Quinze anos são uma centelha para os que virão de solidão.

Adolescente é morto em frente a hospital após visitar filho recém-nascido. Enquanto segurava um bebê-conforto, um menino de 17 anos foi alvejado por uma quantidade não definida de tiros. A maioria das balas atingiu o rosto. Não relataram o movimento que o corpo fez antes de alcançar a calçada, mas houve quem perguntasse: “Tinha passagem?”. O filho estava dentro da maternidade, não no bebê-conforto.

Adolescente é baleada em assalto e morre no dia em que completaria 15 anos. Durante a comemoração de festa de aniversário da mãe, Yasmin Furtado foi atingida pelo disparo de um dos assaltantes. A bala ricocheteou na janela e foi parar na nuca da garota, que não sobreviveu.

As primeira frases dos dois últimos parágrafos foram manchetes do O POVO Online, em 15 de setembro. No sábado, 16, o jornal O POVO manchetou que, a três meses do fim do ano, o número de homicídios de 2017 já supera todo o ano anterior. Em oito meses e meio, 3.417 pessoas foram assassinadas no Ceará. Os dois primeiros parágrafos deste texto são a ficção que arrisco na tentativa de entendermos que há vidas interrompidas por questões que o Estado precisa enfrentar. Nunca serão apenas números.

*Iana Soares

ianasoares@opovo.com.br

Jornalista do O POVO.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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