O direito à verdade

Como tudo o que se refere ao período ditatorial, o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), divulgado esta semana, também provocou polêmicas. Uma delas, se a Lei da Anistia pode ser revista para punir agentes do Estado que praticaram tortura e cometerem assassinatos contra opositores da ditadura Militar, conforme recomendou a CNV.

A presidente Dilma Rousseff, ela mesma presa e torturada no período dos governos militares – apesar da carga emocional demonstrada ao comentar o relatório, levando-a ao choro – preferiu fazer acenos à conciliação, afirmando que “a busca da verdade histórica é forma de construir democracia e zelar pela sua preservação. Verdade não significa revanchismo e não deve ser motivo para ódio”, lembrando que a democracia foi reconquistada “por meio de lutas duras, por meio de sacrifícios humanos irreparáveis”, mas também “por meio de pactos e acordos nacionais que estão, muitos deles traduzidos na Constituição de 1988”. Porém, ela não deixou de ser dura com as atrocidades cometidas no período: “O Brasil merecia a verdade, as novas gerações mereciam a verdade, sobretudo aqueles que perderam familiares, parentes, amigos, companheiros, e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia”.

Em 2010, o Supremo Tribunal Federal decidiu pela validação da Lei da Anistia, porém o assunto ainda pode voltar à pauta. Países vizinhos, como Uruguai, Chile e Argentina, que também padeceram sob ditaduras, levaram criminosos do período, civis e militares, aos bancos dos réus, condenando centenas deles. Ao repor-se o tema, portanto, não está se propondo nenhum absurdo, ainda mais em se levando em conta a recusa das Forças Armadas em auxiliar a levantar o véu que ainda encobrem muitas informações sobre o período.

Assim, o mínimo que se pode exigir, é o direito de se debater, livremente e sem ameaças, qualquer assunto relativo aos governos militares, tendo-se acesso a todos os documentos da época. Também, já passou da hora de as Forças Armadas explicarem-se a respeito dos acontecimentos do período. Pedir perdão – reconhecer erros ou excessos – não diminui nenhuma instituição, pelo contrário, engrandece, e ajuda a curar feridas. Existe maior prova disso do que o comportamento do papa Francisco, em relação aos erros da Igreja?

(O POVO / Editorial)

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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