O Estado falhou duas vezes

Da Coluna Política, no O POVO desta sexta-feira (21), pelo jornalista Érico Firmo:

A inteligência da segurança pública do Ceará falhou, mas não apenas ela. A Polícia foi surpreendida pela inacreditável série de atentados da quarta-feira. Não foi possível antecipar-se para evitar que ocorressem. Quando estavam em curso, tampouco se conseguiu interrompê-los.

O secretário André Costa foi questionado por isso na coletiva da noite de quarta. “Hoje aconteceu um fato que a gente não conseguiu se antecipar, mas vai dizer que é uma falha? Não é. Não tem como se antecipar a toda e qualquer ação, se fizesse isso, não precisava de Polícia na rua, a gente estava resolvendo tudo”, justificou.

De fato, não dá para a inteligência resolver tudo. Até seria o desejável, mas viável não é. Não se espera algo como o departamento “pré-crime” do filme Minority Report (2002). O que admira é que ação criminosa de tão grande dimensão, de ponta a ponta da Cidade, realizado de forma quase simultânea, não tenha sido detectado antes. É exigir demais cobrar que todo crime seja antecipado. Mas, pode-se cobrar, sim, que tão grande ofensiva criminosa seja detectada antes. Foi a maior onda de ataques simultâneos que Fortaleza já viu. Se nem isso é identificado, o que é?

O secretário nega que tenha havido planejamento e considera difícil dizer que houve coordenação. Bom, não conheço mais do assunto do que ele, delegado da Polícia Federal. Não sei, porém, o quanto ele está sendo sincero e o quanto está sendo cauteloso. Ele afirmou que o mesmo grupo realizou mais de uma ação. Verdade. Porém, a proximidade de tempo deixa claro que muito mais que um grupo agiu. Isso é muito evidente. Imagino que houve planejamento, porque não é possível improvisar a maior onda de ataques da história da Capital.

Não é a primeira vez que, pelo menos em público, as forças de segurança subestimam as organizações criminosas. Isso é sempre muito perigoso. Melhor estar preparado para lidar com o crime organizado e se deparar com “pirangueiros” – como dizia o ex-secretário Delci Teixeira – do que esperar enfrentar “pirangueiros” e ter pela frente facções bem estruturadas.

Pode até ter havido grupos que viram que os ataques ocorreram, aproveitaram-se para também cometer atentados. Porém, imaginar que isso ocorreu nos mais de 20 atos criminosos pela Cidade é supor que as células criminosas estão disseminadas por toda parte. Outra hipótese, de um só grupo ter cometido número expressivo de atentados, seria desmoralizante para a Polícia. Os caras incendeiam um ônibus, outro e mais outro sem serem interceptados?

Parece-me bastante claro que houve algum nível de coordenação e o mínimo de planejamento, que não foi detectado. Isso é preocupante. Não é, entretanto, o maior problema. O problema maior é quando está consumada a onda de violência – quando se sabe que há ação orquestrada contra as forças do Estado, contra a população, em última instância – e mesmo assim não se consegue evitar novas ocorrências. Policiamento foi reforçado, viaturas passaram a acompanhar ônibus, mas os ataques persistiram. A estratégia não conseguiu antever para prevenir os atentados nem foi capaz de interromper a série de agressões 24 horas depois de desencadeada.

A inteligência, e mais que isso, falhou.

Uma das causas para esse segundo fracasso, para a Polícia não conseguir impedir ataques que eram esperados e previsíveis, está na perigosa forma de violência que foi desencadeada. É uma forma de guerrilha urbana ou de terrorismo puro e simples. Muito difícil de combater se não for com inteligência e antecipação. São grupos sorrateiros em ações fortuitas. Em muitas ações do gênero, as pessoas agem sozinhas.

Não foi o caso em Fortaleza, desde quarta-feira. Em situação tão ampla e que envolveu número significativo de pessoas, há maior possibilidade de ação preventiva. Quando as iniciativas são menos audaciosas, a repressão se torna ainda mais complicada. A onda de terror de ontem foi um pouco menos intensa que a de quarta-feira. Espera-se e torce-se para que perca força. Porém, mesmo que não como série de ataques, permanecerá o risco de pequenas ações com objetivo de afrontar o Estado e levar terror à população.

Não é o Ceará: o mundo não sabe como lidar com isso. Paris que o diga.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

3 comentários sobre “O Estado falhou duas vezes

  1. O que se ouve, é que há uma grande insatisfação e prejudicial desmotivação no seio dos Investigadores da Polícia Civil que, em tese, seriam os mais preparados para as ações de inteligência e planejamento. Alegam que foram relegados a plano secundário, ao contrário do prestígio e melhorias que foram concedidos somente aos Militares, delegados e peritos.

  2. Enquanto o Estado não trabalhar em consonância com o povo em relação aos anseios populares, à realização de obras públicas que melhoram a qualidade de vida das pessoas, em dar respostas fartamente elencadas pelo povo, especialmente no tocante a irrealidade sobre quanto ganha um político pra atrapalhar a vida das pessoas, enquanto 80% do povo vive na miséria, jamais estaremos tranquilos, viveremos em paz e teremos um governo comprometido.

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