O que vem após a reeleição de Zezinho Albuquerque

Da Coluna Política, no O POVO deste sábado, pelo jornalista Érico Firmo (3):

Se Camilo Santana (PT) ou algum outro candidato governista for vitorioso na eleição estadual de 2018, a reeleição de Zezinho Albuquerque (PDT) será lembrada como uma das primeiras batalhas que levaram ao resultado. Outra foi a recente reeleição de Roberto Cláudio (PDT) na Prefeitura.

Tivesse a base aliada saído derrotada anteontem, seria uma demonstração de fraqueza daquelas das quais governos raramente são capazes de se recuperar. O reflexo imediato seria a debandada ainda mais desenfreada de aliados, em busca de perspectivas mais promissoras de poder.

Porém, há exemplos de vitórias que, longe de sinalizar a continuidade do período de sucesso, marcam justamente o fim dos ciclos. O “canto do cisne”. A partir dali, “vira-se o fio”, como se diz no futebol. O futuro e a competência na condução política de cada grupo indicarão em que caso se enquadra o resultado da eleição da Assembleia nesta semana.

O último grande fim de ciclo político no Ceará tem antecedentes que guardam muitas coincidências com o que se viu nesta semana. Um ano e meio antes de o PSDB deixar o Governo do Estado, uma votação estratégica na Assembleia Legislativa foi o marco da organização da oposição, no enfrentamento ao grupo que então estava no poder. Na época, em junho de 2005, estava em jogo uma cadeira no Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). O candidato do governo era Francisco Aguiar, na época no PPS, então partido do grupo Ferreira Gomes. Pela oposição, concorria Domingos Filho, que estava no PMDB. Dois dos protagonistas da disputa que ocorreu nesta semana.

Hoje ambos estão no TCM. Mas, ainda influenciam na política. O primeiro é pai de Sérgio Aguiar (PDT), candidato derrotado, mas que preocupou bastante o governo. O segundo é a principal referência do bloco que foi o fiador da candidatura de Aguiar e garantiu a ele competitividade. Estavam ambos juntos na recente disputa. Há 11 anos, eles se enfrentavam.

Naquela ocasião, o grupo Ferreira Gomes já estava estremecido com o governo Lúcio Alcântara. Já dava sinais de rebeldia. Mas, eles ficaram juntos nessa eleição. Ou quase isso. Do outro lado, uniram-se PT e PMDB. Sempre habilidoso, Domingos Filho atraiu muitos aliados. Em votações que antecederam a definição, constatou-se que Domingos tinha maioria. Mas, a definição seria no dia seguinte. No meio do caminho, fato pitoresco se desenrolou e mudou os rumos da disputa.

O deputado Carlomano Marques (PMDB), aliado de Domingos, fez uma listinha dos que seriam os “traidores”. Ou seja, os que diziam votar em Aguiar, mas, na votação secreta, estavam com o opositor. Depois, ele rasgou a lista. Os papéis picotados foram recolhidos por José Sarto – na época, suplente que seria efetivado com a eleição do deputado do PPS. Ele levou a lista em pedaços à sede da então Secretaria do Governo (Segov), no Cambeba. A relação dos supostos traidores causou assombro. Alguns dos principais expoentes da Assembleia: o então presidente Marcos Cals, o à época 1º secretário, Gony Arruda (ambos eram do PSDB), e Zezinho Albuquerque, que já era articulador do grupo Ferreira Gomes. Além deles, estava José Maria Pimenta, então no PL, irmão do então secretário executivo da Segov e presidente do PSDB cearense, Cirilo Pimenta. A relação incluía ainda dois ex-líderes do governo Lúcio Alcântara: Osmar Baquit e Fernando Hugo. Eles negaram ser traidores. O governo não quis saber. Cobrou das cabeças coroadas da Assembleia que o resultado fosse revertido. No dia seguinte, Aguiar foi eleito para o TCM por 25 votos a 18. Placar bastante semelhante ao que elegeu Zezinho anteontem: 27 a 18.

Mesmo com o resultado, aquela ficou marcada como uma das primeiras grandes demonstrações de força da oposição ao PSDB. E uma das últimas vitórias emblemáticas do governo Lúcio. A oposição perdeu, mas ganhou força e consistência. Dali a alguns dias, os Ferreira Gomes se filiaram ao PSB. A se dar crédito à lista de Carlomano, já havia interlocução de Zezinho com a oposição. Os entendimentos se aprofundaram. O rompimento só veio no ano seguinte. Cid Gomes foi candidato a governador e o resto é história.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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