Os jovens de hoje, infelizmente, não deixaram de ser criança

Com o título “Estes jovens que se bastam…”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. Uma reflexão sobre posturas comportamentais desse contingente. Confira:

Nélson Rodrigues, certa vez, ao ser indagado sobre qual seria um bom conselho aos jovens, não titubeou: “jovens, envelheçam!”. À parte o tom dramático comum aos textos e entrevistas do escritor e dramaturgo, queria partir desta frase para comentar preocupações que tenho – como pai de um deles, professor de muitos e também como cidadão, com estes milhões de brasileiros que hoje têm o privilégio de viver esta faixa etária.

Digo privilégio não em tom nostálgico, mas porque entendo a juventude como um tempo onde possuímos o maravilhoso poder de cometer erros, acumular frustrações, encarar desafios sem maiores receios, despertar para certas curiosidades, sofrer com paixões, teimar em defender convicções, aprender fazendo, soar de forma desajeitada, extrapolar timidez ou expansividade. Para quem é jovem, o real se apresenta devagar, como uma janela embaçada que aos poucos aflora nitidez.

Como homem de meia-idade, com o pé no freio, mas que ainda cultiva sem medo o apego ao erro como método de acumular experiências, me flagro, por vezes, ressabiado. Posso estar enganado, mas sinto hoje nos jovens o peso e a largueza da acomodação. Percebo olhares baços e preguiçosos, protestos desorganizados e vazios, relações superficiais, emoções virtualizadas em compêndios eletrônicos.

Tudo bem que o futebol no playstation tem seus encantos. Mas nada substituiu o racha no campo de areia, o grito e o suor sujo da competição, o roxo na perna e a unha em carne viva. Tudo bem que a internet ofereça imagens e textos sobre tudo. Mas informação e saber guardam considerável distância. Sexo, por exemplo, é bem diferente de masturbação. Digo isso porque tenho a impressão que, nas relações de hoje, alguns jovens praticam masturbação a dois, sem envolvimento ou compartilhamento de afetos.

E quando se fala de política, bem, meus caros, política não é uma birra infantil pela garantia do seu direito individual: é compreender-se parte da construção de uma coletividade, é organizar-se em prol de um bem comum. É saber dividir e distribuir poder, aquele mesmo, citado no segundo parágrafo.

Poder tem a ver com responsabilidade, com atitude, com autonomia, com autoridade. A liberdade de tomar decisões passa por um necessário amadurecimento, que só se encontra quando se enfrenta o mundo real. Foi esse o envelhecimento sugerido por Nélson Rodrigues. Os jovens de hoje, infelizmente, parece, que sequer conseguiram deixar de serem crianças.

* Demétrio Andrade,
Jornalista e sociólogo.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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