Política alimenta o ódio

Com o título “Política alimenta ódio”, eis artigo do médico, antropólogo e professor Antonio Mourão Cavalcante. Ele faz uma exposição sobre o cenário atual da política, com boas doses de reflexões para o leitor. Confira:

Sempre fiquei me perguntando por que esse ódio ao Lula? O que ele significa de tão terrível para a classe média? É verdade. Os empresários e gente de grana, nem manifestam essa repulsa tão exagerada ao líder do trabalhismo. A História registra o comportamento de Lula, ao longo de sua caminhada pessoal, como alguém que aprendeu a negociar, barganhar e buscar consenso. Foi assim desde os duros tempos dos sindicatos dos metalúrgicos. Propunha até uma política de resultados. E, ninguém foi tão generoso com os patrões…

Ocorre que a classe média tem crenças bem consistentes de conquistas sociais pelo sacrifício, pelos estudos, pelo esforço de subir: ter casa própria, conseguir emprego com garantia, viajar de avião em férias, ter escola boa para os filhos e universidade onde obtém um canudo e depois um bom ofício… Itinerário de vida que justifica sucesso e realização. Tudo é conquistado com muito esforço e sacrifício.

A classe inferior é um espectro macabro que precisa ser exorcizado: colocar filho em escola pública? Procurar tratamento em Posto de Saúde Pública? Morar em determinados bairros, etc… É o grande pânico que ronda a classe média.

Ora, quando aparece um líder dando bolsa para famílias miseráveis, oferecendo casa construída para todos, abrindo possibilidades de viajar de avião, oferecer cotas para egressos da escola pública, negros e favelados… Beira o desespero!.. Estamos sendo invadidos. Trata-se da invasão dos farofeiros… “Na periferia não havia hipermercado e quase nunca se tomava iogurte que o pessoal só chamava de “danone”. As mulheres não compravam absorventes e não havia papel higiênico, só tiras de jornal pregadas na parede.” (…) “a classe média já tinha tudo isso e os pobres não.”[Prof. Lincoln Secco – Depto. História da USP]. Lembram o mal-estar dos aeroportos? “Agora parece a Rodoviária Novo Rio.” Ou o desabafo na reunião do condomínio: ‘”A empregada do 213 agora tem carro e foi para as férias de avião. E eu estudei pra quê?’

Isso não podia continuar. “Esse povo não quer mais trabalhar. Bando de vagabundos!” E, obviamente, o Lula é o grande responsável. Foi fácil mobilizar o pessoal da classe média (sempre ela!). Já estava irada… Saiu às ruas. Gritava e batia panelas, contra a “vaca” da Dilma, o Lula ladrão e o PT safado! Parte do Poder Judiciário, devidamente instrumentalizado, instalou a República de Curitiba. Ai só sobrou para o PT.

O resto da História, todos conhecemos. O tal equilíbrio financeiro e econômico prometido pelos novos ocupantes do Planalto, tornou-se um pesadelo. Levantando o tapete, descobre-se que está tudo sujo. Desesperada, a classe média se dá conta que foi lograda. Fica quieta. Pasma. Como voltar às ruas? Que bandeiras desfraldar?

A História revela que, nestas circunstâncias, a classe média – em desespero – busca alternativas mais radicais, pela direita. Aparece, então, Bolsonaro e Dória, prontos como opções ao gosto de cada um…

Do outro lado, corre Lula, ainda apedrejado e ameaçado. Conseguirá chegar a 2018? As pesquisas todas indicam que se a eleição fosse hoje, estaria eleito. Que pode indicar um candidato e vencer. Isto é, que tudo recomeça.

Será que vale a pena ver de novo?

*Antonio Mourão Cavalcante,

Médico e Antropólogo. Professor Universitário.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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