Quantos Frank Underwood teríamos no Brasil?

Com o título “Assim falou Frank Underwood”, eis artigo do jornalista Luís-Sérgio Santos. O conteúdo teria alguma semelhança com o cenário político brasileiro? Confira:

House of Cards é a série sobre política real ambientada em Washington DC exibida pela Netflix. Segundo o dicionário Merriam-Webster a expressão remonta a 1645 e poderia ser traduzida para o português do Brasil como Castelo de Cartas. Segundo o mesmo dicionário refere-se a “uma estrutura, situação ou instituição não substancial, instável, ou em constante perigo de colapso”. Como uma castelo de cartas. A palavra “House”, do título, nos remete também para “House of Representatives”, a Câmara dos Deputados nos Estados Unidos de onde a personagem central emerge. O seriado, em terceira temporada, mostra uma sanha política totalmente amoral, com atos e estratagemas cheios de sordidez, traições, despudor e truculência cheia de desfaçatez. A narrativa é conduzida pelo congressista Frank Underwood, o político astuto, matreiro e amoral que não dá ponto sem nó. Tudo nele tem uma segunda, uma terceira uma enésima intenção.

Ele mente, corrompe, conspira e alicia e, no entanto, ele é o protótipo do político de sucesso. Em sua desfaçatez Underwood tergiversa e jura desconhecer todos os atos que promoveu, patrocinou ou induziu. Ele é o fio condutor e fala direto no olho do telespectador relevando suas reais intenções. Os diálogos de Frank são desconcertantes. Sua marca é “ressentimentos, nunca”. Frank chegou a presidência da república dos Estados Unidos sem nenhum voto, só na base da manipulação, da truculência e da tradição. Casado, em uma relação bastante liberal — a mulher Claire tem um amante — Frank vira fonte de uma ambiciosa repórter em início de carreira e, rapidamente, a tem como amante com a cumplicidade de Claire. “É preciso ser um pouco humano quando se é presidente”, Frank ensina olhando para a câmera, isto, olhando para o telespectador. Um conclusão fecha uma cena sórdida quando ele visita o túmulo do pai onde comete um ato impublicável em um jornal de família (é preciso ver o primeiro episódio da terceira temporada para saber o que é). Frank é candidato a reeleição mas enfrente oposição dentro do seu próprio partido, o Democrata. Ele escolher um opositor para vice dentro de uma simples lógica: “Prefiro que seja um pé no meu saco aqui [na Casa Branca] do que no Congresso”. Ele corta na própria carne para colher outros frutos em um futuro próximo. E vai provar seu próprio veneno porque seus pares políticos são barra pesada.

Quando se vê largado por seu partido Democrata, Frank reage buscando uma série de doares de campanha, dezoito meses antes das eleições presidenciais. “Eu sempre disse que o poder é mais importante do que o dinheiro mas quando falamos de eleições, dinheiro dá ao poder uma bela vantagem”, ensina, olhando para a tela. Nesse seu périplo ele nos revela: “é humilhante ter que implorar a um garoto que estava no Facebook antes dos testículos descerem”. Na faculdade, Frank se apegou a uma máxima de diplomacia que pratica ainda hoje: “Dê a mão mas segure uma pedra com a esquerda”. O seriado é uma curso intensa de política aplicada. Mas, alertam os autores, produtores e diretores, está na esfera da ficção. Sem dúvida que sim. Quando vemos, no Brasil, os fatos sórdidos e as mentiras dos primeiros escalões da política nacional, olhamos nos olhos de Frank Underwood e dizemos: “Frank, vocês de Washington são todos amadores na frente daquela turma lá em Brasília”. Pelo menos em um ponto, sim. A corrupção de Frank é essencialmente moral. Ele não rouba o Estado a que (des)serve.

* Luís-Sérgio Santos

Jornalista.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

Um comentário sobre “Quantos Frank Underwood teríamos no Brasil?

  1. Formidável comparação com a política brasileira, a série fala de um Deputado Federal (Câmara dos Representantes), que controla um dos dois maiores partidos dos EUA (democratas), usa sua liderança para aprovar leis, nomear apaniguados, pressionar empresários para o apoio a seus projetos e que através da sua astúcia chega a Vice-presidência do país, e lá, lidera uma campanha para desestabilizar e tomar cargo de Presidente com declarações de lavagem de recursos públicos fartamente divulgadas na imprensa e uso de procuradores da República ávidos pelo poder.
    Será que a arte imita a vida??????

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