Rosane Collor desnuda ex-marido em testemunho corajoso

Com o título “A versão de Rosane, ex-Collor”, eis artigo do jornalista Luís-Sérgio Santos. Ele leu e comenta livro de Rosane Collor, ex-mulher de Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente cassado pós-redemocratização do Pais. Ele fala de Rosane, mulher apaixonada e que expõe a intestina relação PC Farias e Collor, entre alguns episódios. Confira:

É muito provável que muitos potenciais leitores deste livro o evitem por puro preconceito. Afinal, Rosane Collor, a autora, sempre foi vista como uma caipira mal informada a reboque do marido, o presidente Fernando Collor. Mas o fato é que “Tudo o que vi e vivi — O testemunho corajoso da primeira-dama mais jovem que o Brasil já teve”— editora Leya, 224 páginas — é um livro que certamente será referência, doravante, para qualquer estudo que tente recuperar o período histórico do Governo Collor. A autora agora assina como Rosane Malta, membro de uma família tradicional em Alagoas. Mas, à época da narrativa, era Rosane Collor, mulher do “caçador de marajás”, o candidato que amarelou Lula em um polêmico debate na TV Globo. A história mostra, hoje, que Lula não estava, à época, preparado para a vitória.

A autora tem claramente um objetivo, enfatizar que doou parte relevante de sua vida ao projeto político do marido sem o reconhecimento deste. Em muitos episódios sentiu-se abandonada. Mas entregou-se totalmente, segundo relata. A narrativa é meramente documental, sem nenhuma pretensão estilística e focada apenas no ponto de vista da autora. Portanto, qualquer crítica ao estilo será uma ma fé de quem o fará e eu não farei. O valor do livro está em revelar o ponto de vista de uma “insider”, ela estava lá o tempo todo embora em questões polêmicas prefira ser prudente. A despeito de estar divorciada de Collor a autora parece se ater aos fatos. Trata sempre ser realista, se dermos à autora a credibilidade que ela se dá a si mesma, a de uma pessoa íntegra e crédula.

Rosane era totalmente apaixonada por Collor, até um dado momento e nesse dado momento ele já era presidente do Brasil. Como milhares de brasileiros, ela acreditou piamente no projeto do marido assentado no conceito de caçador de marajás, colocar as coisas em ordem. Sobre o processo eleitoral ela fala pouco ou quase nada, mas relata em detalhes a consultoria em magia negra que seu marido utilizava regularmente, incluindo sacrifícios de animais dos quais, o de maior tamanho, teria sido um ovino ou, eventualmente, um búfalo. Rosane chegou a participar dos rituais. Um desses foi contratado para que o então candidato Sílvio Santos, uma ameaça eleitoral a Collor, desistisse do embate, o que de fato aconteceu. Sílvio saiu da cena. Vários outros rituais pós-eleição aconteceram na Casa da Dinda, residência de Collor presidente, em Brasília. Em um desses, com sacrifícios de aves, ficou uma emporcalhada só, lembra Rosane.

O conflito dos irmãos Collor é um momento tenso. Thereza Collor é personagem pulsante. Maria Thereza Pereira de Lyra Collor de Mello Halbreich, conhecida como Thereza Collor, mulher de Pedro, irmão de Collor, teria sido um caso do presidente — o amor platônico fica claro. Isso se espraia pelo livro em vários momentos. Thereza seria alucinada por Collor e este a recepcionaria. Há um relato picante no livro, entre os dois. Mas Rosane acha que as iniciativas sempre partiam da cunhada — Collor seria um reativo no melhor estilo do “aquilo roxo”.

Sobre PC Farias, Rosane passa quase batido menos pelo episódio de ter rejeitado dele e ideia de aparelhar algumas ações da LBV, da qual era presidente, mesmo primeira-dama. Mas outros episódios são relatados mostrando a intestina relação entre PC e Collor.

Collor foi vitima de sua demasiada autoestima e da certeza de que teria apoio popular em qualquer situação. A expressão “base aliada” sequer existia em sua época. Ele deu uma solene banana para o Congresso pois, segundo Rosane, tinha ojeriza a políticos profissionais. “Adorava o povo, detestava políticos”, escreve a autora. Ele assumiu a presidência com boas intenções – queria como seu ministro da Economia o emblemático Roberto Campos. Acabou assumindo a desastrada Zélia. Para as Relações Exteriores queria Fernando Henrique Cardoso, então vetado por Mário Covas. Collor alimentava uma enorme admiração por Covas que, a partir daí, virou seu inimigo figadal.

Sobre Ulysses, comemorou sua morte, relata Rosane. “Veja o que acontece com os que me traem”. Ulysses cassou Collor, morreu em trágico acidente, engolido pelo Oceano e seu corpo nunca foi encontrado.

O livro tem detalhes sórdidos de traições de confiança principalmente envolvendo a venda da casa em Miami, de onde Roseane não viu um centavo, e sobre um contrato nupcial de separação total de bens que ela e seu pai assinaram sem terem livro. “Eu estava totalmente apaixonada”, diz.

A passagem de Collor pela presidência nada agregou à cultura política nacional. Os caras pintadas foram às ruas exercitar a sede da democracia recém-instalada, contra a corrupção. Não ficou a lição. De lá para cá a corrupção aumentou e os caras pintadas se recolheram. Uma certeza, Collor só foi cassado por não ter construído sua “governabilidade”. Hoje ele próprio, Collor, redimido pelo voto, reza na cartilha da “governabilidade” do governo Dilma.

* Luís-Sérgio Santos,

Jornalista.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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