No tempo do “Aonde o Mauro vai, o povo vai atrás…”

Com o título “História das eleições no Ceará I – Mauro: uma zebra previsível”, eis artigo do jornalista, radialista e professor Francisco Bezerra. Ele revive um momento da campanha eleitoral no Ceará, no que diz respeito ao Senado. Confira:

“A liberdade de eleições permite que você escolha o molho com o qual será devorado.” Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio.

“Aonde a vaca vai, o boi vai atrás…” Foi com a paródia desta música do brega Joãoda Praia que a campanha de Mauro Benevides a senador, em 1974, pelo MDB, foi entoada na serra, no sertão e no litoral do Ceará. Os tempos eram de chumbo e o MDB, na vigência do bipartidarismo, uma oposição consentida pelos militares que abrigaram seus áulicos civis na Arena. O jingle da campanha do cacique da oposição ressoava estado adentro em versos que anunciavam: “Aonde o Mauro vai, o povo vai atrás.”

O Ceará era, então, território dos coronéis de patente. César Cals ocupava a chefia do governo desde 1971. Adauto Bezerra exercia mandato de deputado estadual. E finalmente Virgílio Távora era integrante do colendo Senado da República. Os governadores da época eram biônicos, pois a ditadura além de cassar os votos dos brasileiros para presidente, também deixou o cargo executivo estadual longe das urnas a partir de 1966. Antes de César Cals já tinha sido governador indicado o advogado e servidor público Plácido Aderaldo Castelo. O padrinho político do filho de Mombaça foi o senador Paulo Sarasate, que havia morrido em 1968.

Ernesto Geisel houvera assumido a presidência da república em 15 de março de 1974, tornando-se o quarto general a ocupar o cargo desde o golpe de 1964. Mesmo estando os três coronéis abrigados na legenda da situação, havia entre eles uma guerra surda pela ocupação de espaço político no estado. Prova disso é que nas eleições parlamentares e de prefeitos, a exceção das capitais, havia as sublegendas. A Arena 1, a Arena 2 e a Arena 3. Cada uma de um coronel/político.

César Cals estava em final de mandato e quis bancar sozinho a candidatura do engenheiro civil, Edilson Távora, que vinha de quatro mandatos de deputado federal. Além de não ser candidato de consenso, Edilson, apesar do parentesco com o senador Virgílio, era desafeto deste. Dizem até que o dissentimento entre os primos era de ordem familiar. A indiferença virgilista era tão grande que o senador passou boa parte do tempo da campanha para senado fora do Ceará. O coronel Adauto também não via com bons olhos a candidatura de alguém intimamente ligado ao governador sainte.

Com efeito, Edilson Távora foi cristianizado (o termo advém de Cristiano Machado, uma outra história eleitoral a ser contada) e perdeu a eleição de 1974 para Mauro Benevides, beneficiário do apoio, por baixo dos panos, de Adauto e Virgílio. Mauro, aos 44 anos, já era considerado uma raposa política astuta, formado nas hostes do velho PSD de tantas batalhas eleitorais, quando exerceu mandatos de vereador e deputado estadual, tendo sido presidente ainda da Assembleia Legislativa. Um político passado na casca do alho, cuja característica maior era a conciliação, por isso mesmo acusado pelos adversários de ser “murista.”

A “zebra” para o Brasil e o partido dos generais, que contabilizavam vitória no Ceará, não causou espécie em terras alencarinas, onde o sucesso eleitoral do emedebista suscitou espanto apenas aos incautos da política.

Uma adenda importante: nas eleições parlamentares daquele ano, a Arena levou uma surra nas urnas de criar bicho. Das 22 cadeiras de senador em disputa no Brasil, o MDB ganhou 16 e a Arena apenas 6. O cadafalso da derrota sobrou para o senador Petrônio Portela, então presidente nacional da Arena. O político piauiense foi apontado, por muitos dentro do regime, como o grande responsável pela derrota acachapante do partido da ditadura. O troféu do revés no Ceará coube a César Cals, dos 3 coronéis o sem cintura no jogo da política, atividade humana tão bem descrita por Voltaire: “ A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano.”

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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