Uma prega no tempo de 25 anos

Em artigo no O POVO desta segunda-feira (8), a assessora institucional da Rede Cuca, professora e jornalista Ana Márcia Diógenes ressalta a postura do ex-presidente do O POVO, Demócrito Dummar, quando o jornal teve a coragem de “dar sua linha editorial à tapa” e criou a função de ombudsman. Confira:

Em sala de aula de graduação dos cursos de Jornalismo, nas disciplinas iniciais, quando o assunto é ética e análise crítica dos meios de comunicação, um nome ainda estranho para a maioria dos estudantes vem à tona: ombudsman. Infelizmente, esse mesmo desconhecimento vai para além de estudantes e alcança diferentes camadas da sociedade.

Para clarear: ombudsman é uma palavra de origem sueca, que significa a função de escutar, a exemplo dos ouvidores das repartições e empresas. Em jornais, o ombudsman ouve as críticas dos leitores, interage com a redação em busca de respostas, analisa a cobertura diária e tem uma coluna semanal com críticas e elogios. Um profissional com experiência de mercado, pago para “pisar no pé” da própria empresa, como um “advogado do diabo”.

Para os alunos, explico a falta que faz que todos os meios de comunicação tivessem o seu ombudsman. E assumo a vergonha, como jornalista e professora, de que só dois jornais do Brasil, ao que me consta, tenham ombudsman: Folha de S. Paulo (1989) e O POVO (1994). Se outro periódico nacional criou a função de ombudsman, não durou o suficiente para entrar na história.

Os mais curiosos aspirantes a jornalistas perguntam por que outros jornais não instituíram o “ombudsnato”. A explicação é sempre uma viagem de volta ao passado. Um retorno a 25 anos de história, quando o jornal O POVO teve a coragem de “dar sua linha editorial à tapa” e criou a função de ombudsman.

Tive a grata oportunidade de estar na redação à época. Era editora de Política em ano de supereleições: presidente, governos, 2/3 do Senado, deputados federais e estaduais. Ano seguinte, como diretora de redação, passei a interagir direto com a primeira ombudsman do jornal, a ex-professora Adísia Sá, que trazia junto a história do jornalismo no Brasil.

Todos tiveram que se reinventar: redação, ombudsman e diretoria. Não é fácil ser criticado. É preciso ter coragem para manter um funcionário cuja função é a crítica, mesmo construtiva. Demócrito Dummar, um homem à frente de sua geração, dizia uma frase que espelha essa decisão: para avançar, a gente tem que dar uma prega no tempo.

Há 25 anos, O POVO, leia-se Demócrito Dummar, deu essa prega no tempo. Vários ombudsman passaram, e a função continua firme. Como lamento que outros meios de comunicação não consigam tirar o véu que cobre o receio da crítica. Em tempos de redes sociais e convergência, mais do que nunca os leitores precisam de transparência.

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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