A vitória do manto tricolor

Com o título “A vitória do manto tricolor”, eis artigo do jornalista e sociólogo Demétrio Andrade. Ele confessa que chegou a não acreditar que seu Fortaleza superaria dificuldades e subiria para a Série B, do Brasileirão. Presta ainda uma homenagem à torcedora Toinha, símbolo de fé no “Leão”. Confira:

Não lembro quando nem porque exatamente comecei a torcer Fortaleza. Alguns tios meus mais próximos me iniciaram na vulgar e única magia dos estádios e a paixão não tardou a se desenvolver. Aos poucos, veio a rotina de decorar times inteiros, resgatar a história e os “causos”, comemorar títulos, discutir táticas, zoar adversários e cultuar o manto tricolor. A relação que se estabelece com um time é para sempre: é como se fosse uma pessoa da casa, da família, do círculo de amizades, com quem a gente briga e se alegra, se desfaz e refaz, vibra e se desespera.

A escolha de um time é tão ou mais forte que um casamento. E assentada definitivamente numa íntima redoma emocional à beira da irracionalidade. No futebol, trata-se de uma união estável de loucura, posto que, diferente de qualquer outro esporte, seus resultados são de uma imprevisibilidade capaz de desempregar os mais infalíveis e competentes estatísticos, matemáticos, videntes e profetas. Digo mais: caso o esporte bretão já existisse em sua época, Nostradamus teria caído no mais profundo descrédito.

Costumava dizer que futebol não tinha ética. Hoje sinto que me enganei: o ludopédio tem uma moral própria, elástica, difamatória e – muitas vezes – canalha. Uma simbiose cancerígena na qual convivem reações de ódio e ternura. Tal como no amor, já ensinava Stevie Wonder, onde tudo é permitido, no futebol tudo se pode.

Quer dizer, quase tudo: deixar de torcer é crime inafiançável, indesculpável e inenarrável. Coisa que se pune com a mais atroz indiferença. Aliás, até hoje olho atravessado para pessoas que se declaram não-torcedoras. À primeira vista, interpreto como sórdido desvio de caráter: não merecem de mim o compartilhar de sequer um copo da mais modesta cerveja no mais vagabundo botequim.

Dito isso, submeto-me ao autoflagelo público ao confessar que, por alguns minutos, quase desacreditei do meu Leão do Pici, Tricolor de Aço, Time da Garotada. Pudera, apesar de todo o esforço e competência da atual diretoria, que topou o desafio de quase ressuscitar um defunto, o elenco atual, uma nota abaixo do sofrível, cansou de desafiar a paciência do torcedor, de quebrar a bola junto com o nosso quengo, de maltratar até mesmo a ruindade. Em suma, estava mais para escroto do que escrete.

Mas nunca foi tão forte a expressão “jogou só com as camisas”. Desafiando mais uma vez a lógica, superando limitações, foi este o time que desancou o adversário, arrancou a primeira vitória em um mata-mata e nos livrou da Série C após oito anos seculares. O Fortaleza passou por cima até mesmo do anúncio do fim do mundo, marcado dramaticamente para o mesmo dia de sua gloriosa ascensão. Coisa sagrada, de envergonhar o mais convicto dos ateus.

Após o resultado, ficará para a eternidade a imagem da guerreira Toinha, torcedora-símbolo do Fortaleza, abrindo o mar verde do campo adversário somente com sua fé, seus joelhos e sua bandeira. Um tapa na cara daqueles que, como eu, ousaram desrespeitar o imponderável, desconfiar do impossível e, principalmente, por em suspeição o mito da estoica e definitiva cumplicidade do Fortaleza Esporte Clube com a vitória e a imortalidade. Seja bem vindo, meu Leão, a mais um degrau a ser superado.

*Demétrio Andrade,

Jornalista e sociólogo.

(Reprodução – Esporte Interativo)

Eliomar de Lima

Sobre Eliomar de Lima

Jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação, não dispensa cantarolar de vez em quando. Pra não dizer que fugimos do mundo da intelectualidade, temos Especialização em Gestão da Comunicação. Email:eliomarmar@uol.com.br / eliomardelima@gmail.com

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